Dizem as más línguas que o estudo de metafísica equivale a um professor cego, ensinando a uma turma de alunos cegos, a procurar, num quarto escuro, um gato preto, que não está lá, o que eu acho um exagero.
Mas a nossa mania de buscar fundamentos transcendentais para certos conceitos deve ser refreada, sob pena de vermos fantasmas, que logo podem se materializar em bichos de verdade, atrapalhando a nossa compreensão das coisas.
Isso acontece, atualmente, com a noção de valor. O sentido do vocábulo deve ser, essencialmente, monetário, sem as qualidades transcendentais que nos acostumamos a associar a ele. Acontece que o dinheiro, ao contrário do valor, é visto, preconceituosamente, como algo vil e sujo, e isso contribui para afastar os dois termos.
Para Marx, por exemplo, com o desenvolvimento do capitalismo, as pessoas estariam tão alienadas, que traduziriam (= converteriam) em dinheiro todos os demais valores, inclusive os “espirituais” o que, para ele, seria um mal.
Creio que o conceito de valor de troca, formulado por A.SMITH, seja em parte o responsável pela atual confusão em torno da noção de valor, na medida em que o grande economista, ao vincular ao valor de troca, como se fosse o seu conteúdo, o poder aquisitivo conseguiu perpetuar, anacronicamente, a idéia de valor intrínseco, que estava condenada a desaparecer quando a circulação monetária se tornou totalmente de papel.
Quando a moeda deixar de ser associada ao mal, e o valor for despido de suas conotações transcendentais, passaremos a avaliar, monetariamente, sem culpa, inúmeras situações para as quais não temos, atualmente, explicações satisfatórias. Para a tristeza, talvez, de A. SMITH e de MARX.