A MÍDIA NÃO DEVE SER DESCONSTRUTIVA

O presidente da FIOCRUZ, Paulo Buss, declarou que a crise da febre amarela foi usada pela oposição numa tentativa de “minar” o governo federal em um ano eleitoral, afirmando:

“ Claro que o assunto é sério e o número de pessoas afetadas é alto. Mas o temor foi canalizado pela oposição e pela imprensa para bater no governo e no PT.”

Quem vê televisão e lê os jornais percebeu, nesses dias, o tratamento sensacionalista dado às fileiras de pessoas buscando tomar vacinas. Que o DEM, um partido de oposição, faça barulho, tudo bem. A mídia, porém, tem uma responsabilidade social que ela – ou grande parte dela – não está assumindo.

Não é correto, do ponto de vista da ética jornalística, estimular a população a correr aos postos de vacinação, expondo muitos a reações adversas . As pessoas de boa fé pensam que os órgãos de divulgação são isentos e não conseguem se defender das campanhas por eles desencadeadas com segundas intenções.

Pelo fato de ser independentes – como devem ser – os dirigentes e editores dos jornais, rádios e televisões não devem ser hipócritas, cabendo-lhes, se for o caso, assumir uma postura editorial clara de oposição, mas sem usar cometimentos para incitar a população a ter reações equivocadas, que podem prejudicá-la, como está ocorrendo nesse episódio da vacinação contra a febre amarela.


NOSSOS PRECONCEITOS E AS ELEIÇÕES AMERICANAS

Encontram-se em primeiro lugar nas pesquisas de preferência dos candidatos democratas às eleições dos Estados Unidos uma mulher e um negro.

Haverá o risco de os preconceitos contra qualquer um deles que for o escolhido darem uma vantagem ao candidato republicano na hora do voto efetivo ?

Assumindo que muitos ainda sofremos, episodicamente, do mal do preconceito, fica-nos em princípio uma dúvida: quem pode prejudicar mais o Partido Democrata pelo eventual preconceito do eleitor americano, o negro ou a mulher?

É mais fácil abstrairmo-nos de que BARAK OBAMA é negro do que HILARY CLINTON é mulher, de modo que o preconceito talvez trabalhe mais contra ela do que contra ele.

De qualquer modo, sob esse aspecto – como, aliás, a própria CLINTON acentuou em certa oportunidade – as eleições americanas ( se vencerem, é claro, os democratas que estão na frente nas pesquisas) servirão como um poderoso antídoto contra os preconceitos em geral.


INGENUIDADE DO EDITORIALISTA

A cobertura que a mídia brasileira vem dando á crise financeira americana tem sido muito eficiente, contando com a publicação de artigos de colunistas, brasileiros ( dentre eles cumpre destacar CELSO MING ) e estrangeiros ( como ANATOLE KALESKY e PAUL KRUGMAN, por exemplo ) que analisam os fatos com serenidade e competência.

A tendência ideológica ( aliás inevitável ) dos jornais, contudo, leva os editorialistas a cometer, às vezes, certos exageros como o que viu, hoje, no ESTADÃO, com o texto “O Pacto de Bush”, que termina com o seguinte ( longo ) parágrafo:

“ Mas a economia americana, como disse o presidente Bush na sexta-feira, ‘é fundamentalmente forte’ e tem demonstrado uma capacidade notável de recuperação.[...] O sistema produtivo americano continua caracterizado por uma flexibilidade e por uma capacidade inovadora superiores, até agora, às de qualquer outra potência econômica de primeira classe. Os operadores e analistas o mercado de capitais parecem esquecer esses aspectos da economia real, com a visão limitada, cada vez mais, ao horizonte do curtíssimo prazo”.

Depois de ler esse trecho do editorial de hoje do Estado de São Paulo fica-se tentado a indagar: e daí ? Que os EUA são uma potência econômica, há mais de um século, “fundamentalmente forte” ninguém tem dúvida. O que são, porém, os “aspectos da economia real” a que alude o editorialista ?

Ao mencionar a economia real o editorialista do Estadão parece sugerir que ele, e não os outros ( que têm visão de “curto prazo” ) sabe o que é a realidade e, sendo assim, é o dono da verdade, porque quem conhece a realidade econômica leva uma vantagem sobre todos os demais ( que, supostamente, não conhecem a realidade ).

O curioso é que as críticas que são feitas à gestão financeira da economia americana não fazem menção às despesas astronômicas das guerras em que os EUA se meteram e ainda ameaçam se meter.

Numa linha aparentemente divergente do editorial de hoje o colunista CELSO MING, no seu artigo de ontem intitulado “Clima pesado”, embora não se refira diretamente às despesas militares dos EUA, afirma:

“ A verdadeira natureza da crise é, no fundo, a mesma que atacou os países emergentes nas décadas de 80 e 90: os rombos orçamentários produzidos pela administração George Bush a partir de 2001. Se é assim, fica incompreensível que os Estados Unidos justifiquem estímulos fiscais condenados quando a crise ocorria em outros países. Quando a encrenca estava nos países emergentes, tanto o governo americano como Fundo Monetário Internacional ( FMI ) bombardearam qualquer providência que implicasse aumento das despesas públicas. Se essa receita ortodoxa fosse aplicada agora, os Estados Unidos teriam de cortar suas despesas e antecipar o pagamento da dívida, o que ajudaria a equilibrar as finanças e atrair capitais externos.”

A crise financeira nos EUA é, antes de tudo, monetária. Afirmar isso não significa ter uma visão de curtíssimo prazo, mesmo porque há anos alguns analistas de mercado ( como GEORGE SOROS, por exemplo ) vêm dizendo que o capitalismo americano enveredou por terrenos perigosos, e que as conseqüências do seu descaminho podem ser terríveis para um povo que vive um dia a dia confortável mas penoso.

Não temos o direito de ser ingênuos para parecermos bons moços.

Os EUA estão mergulhados numa enorme complicação monetária e a culpa – já que todos gostam de procurar os culpados – é deles mesmos, e não de seus inimigos externos.


O BRASIL E A CRISE AMERICANA

O Brasil, ao que tudo indica, não está gravemente ameaçado pela crise financeira americana pois tem altíssimas reservas em dólar e diversificou, recentemente, as suas exportações, deixando de depender essencialmente do mercado dos EUA.

O que dirão, agora, certos economistas e diplomatas “de direita”, que achavam que diversificar as exportações era uma opção ideológica errada do governo e que o certo era continuarmos a nos concentrar no mercado norte-americano ?


DANO INCOMENSURÁVEL

Assisti, na televisão, ao discurso do presidente Bush, no qual ele assumiu que o seu país está numa situação que – embora não tenha sido chamada expressamente de recessão – tem todas as características de uma …. recessão.

Ninguém, ao que parece, gostou muito do que ele disse, embora o governo estivesse solenemente reunido e ele tenha feito aquela cara de sempre, de quem está dizendo algo muito importante, e com muita convicção.

Faltou a Bush trazer novidades concretas: baixar impostos é uma receita conhecida, que foi aplicada durante esses 7 anos da sua presidência e deu no que deu.

É verdade que, para agravar as conseqüências prejudiciais dessas reduções dos tributos – com uma promessa agora de reedição – o presidente Bush, ainda por cima, enfiou os EUA numa guerra longínqua ( e iníqua ) que já dura há anos, permanece inconclusa, e isolou o seu país diante da comunidade internacional e está custando caríssimo.

Tudo indica, portanto, que esta presidência será a pior de toda a história dos EUA e que Bush entregará o país a seu sucessor com uma recessão econômica e uma guerra perdida, o que não é pouco.

Os americanos vão ter que resolver, de 2009 para a frente, uma porção de enormes problemas, mas deverão, preliminarmente, responder a uma grande questão: que diabo de regime de governo é esse que permitiu uma escolha tão infeliz, uma reeleição tão irresponsável, e não facilita a substituição do governante péssimo ?

O fim do governo Bush poderá ser, também, o fim do presidencialismo americano ?