OS KENNEDY E BARACK OBAMA

Embora simpatize com as pessoas envolvidas nos movimentos a favor do Senador BARACK OBAMA – especialmente o meu querido amigo “Big O” – e não saiba os motivos que estão levando os KENNEDY a apoiá-lo como candidato do Partido Democrata , o fato é que não gostei do estilo do artigo que CAROLINE KENNEDY escreveu para o New York Times e foi publicado, hoje, no Estadão, sob o título “Um presidente como meu pai”, parecendo-me que ela não percebe que os tempos atuais são muito diferentes dos que viram a ascensão e o exercício da presidência da república por seu pai.

CAROLINE, com efeito, procura alguém capaz de inspirar “otimismo” naqueles que acreditam nos “ideais” dos EUA, que tenha “capacidade especial” para fazer com que os americanos “acreditemos em nós mesmos” e “ imaginar que juntos possamos fazer grandes coisas”, e que isso “é possível”. Segundo ela, o Senador pelo Estado de Illinois tem “qualidades de liderança, caráter e julgamento”, tendo criado um “movimento que está mudando a face da política”, o que estimula os “jovens a engajar-se no processo”, mesmo aqueles que se sentem atualmente “desesperados, frustrados, e desconectados”, pois neles OBAMA incute um “ senso de possibilidade”, expressando uma “visão” positiva para as “esperanças do que ainda acreditam no Sonho Americano”.

Ora, grande parte desse Sonho Americano é produto da ideologia pós Segunda Grande Guerra, atualmente esgotada, quando a China e a Índia ( e mesmo o Brasil ) ainda não eram potências, e o Oriente Médio estava sendo geopoliticamente desenhado – mal desenhado, como a História afinal mostrou – pela pena intolerante de Churchill.

Mesmo não estando em decadência, os EUA não são mais ( graças a Deus ) a polícia do mundo e precisam enquadrar-se em mecanismos institucionais que controlem a sua beligerância, tão defasada, historicamente, como estaria a da China, por exemplo, se pretendesse reviver os dias gloriosos de Gengis Kahn…

O momento , a meu ver, é dos Estados Unidos – que estão perdendo a segunda guerra em que se meteram sem razão, que se tornaram os maiores e mais irresponsáveis poluidores da atmosfera e estão ameaçados por uma recessão econômica – acostumarem-se a conviver com as diferenças e diversidades, sem que para isso seja preciso buscar inatingíveis ideais e boas intenções, das quais o inferno, como se sabe, sempre esteve cheio.


EXERCÍCIO DE ABSTRAÇÃO

Assisti , na televisão, à entrevista concedida a JORGE PONTUAL pela jornalista americana MARY ANASTASIA, uma das editoras do Wall Street Journal, que me pareceu, no início, simpática e bem falante, mas logo se mostrou dona de um discurso ideológico irritantemente previsível.

É que para enfatizar a necessidade de redução da presença do Estado na Economia os neo liberais, como ela, acabam abstraindo-se da existência de uma ordem jurídica, o que não passa de uma fantasia, especialmente nos EUA onde a atuação nacional e internacional do Estado é uma realidade gritante.

Com efeito, como se abstrair do Estado numa sociedade que cada vez mais depende dele para emitir dólares e invadir militarmente outros países ?


CENTRO DE ESTUDOS NORBERTO BOBBIO

Aqueles que apreciam a obra do grande pensador italiano podem encontrar, no centro normalmente agitado de São Paulo, um lugar tranqüilo de reflexão sobre a obra de NORBERTO BOBBIO, numa via de pedestres, Rua Três de Dezembro n. 38, bem ao lado da BOVESPA.

Além de contar com ampla biblioteca, o Centro de Estudos promove encontros, simpósios e seminários visando, fundamentalmente, aplicar as teorias democráticas de BOBBIO às organizações sociais.

Mais informações sobre o Centro de Estudos Norberto Bobbio podem ser encontrados na página da BOVESPA.

Vale a pena uma visita pessoal ao local, que funciona diariamente de 10,00 às 18,00 hs.


“FUNDAMENTALISMO DE MERCADO”

O megainvestidor GEORGE SOROS afirmou, ontem, ao jornal austríaco “Standart” que o pacote baixado pelo presidente Bush pouco contribuirá para fazer face à crise americana atual que decorre, em última análise, do que ele chama “fundamentalismo de mercado”, expressão cunhada por ele para significar a crença neo liberal ( e neo conservadora ) que o Estado é desnecessário nos âmbitos nacionais e inviável no plano internacional.

Um dos livros de SOROS, com apresentação de ARMÍNIO FRAGA, intitulado “A Crise do Capitalismo, as ameaças aos valores democráticos, as soluções para o capitalismo global” foi publicado no Brasil, em 1999, pela Editora Campus, e merece ser lido e relido.

Os papas do neo liberalismo, como HAYECK e FRIEDMAN, expõem suas doutrinas como se o dinheiro dispensasse a existência do Estado, abstraindo-se do fato ( elementar, meu caro Watson ) de que é o Estado que emite o dinheiro.

Como o dinheiro ainda é um fenômeno nacional ( exceto no caso do EURO ) essas doutrinas “neo” puderam aplicar-se, muito facilmente, no mercado financeiro internacional uma vez que não existe uma moeda internacional – precisamente porque não existe um Estado internacional.

Hoje em dia, como alerta, aliás, SOROS no seu livro, às pp. 31 “inexistem instituições financeiras em escala internacional”, muito embora exista um poderosíssimo “sistema” financeiro internacional, baseado no tal “fundamentalismo de mercado” que deixa o crédito inteiramente desregulado.

Uma solução global ( que seja, além disso, imediata ) para essa questão não é fácil; o que não deve impedir o Brasil, porém, e outros países – especialmente do MERCOSUL – de colocarem, desde já, as suas barbas de molho.

As formas clássicas – imperialistas e militaristas – de administrar o mundo faliram completamente nas mãos de George Bush e da sua guerra particular do Iraque.

O único meio de organizar o atual complexíssimo feixe de relações entre Estados nacionais e empresas e bancos multinacionais, sem pretender dar marcha ré na inevitável globalização financeira, é criar mecanismos mundiais ( Bancos Centrais ) de controle dos capitais que, a princípio, não podem deixar de ser regionais.

O Brasil, aparentemente, não vai sofrer, agora, os efeitos da crise americana pela razão simples de que temos enormes reservas cambiais. Essas reservas, porém, estão em títulos do Tesouro Americano, de modo que uma crise profunda e duradoura, como essa que se espera, vai acabar nos atingindo, ainda que indiretamente, como portadores de títulos públicos dos EUA.

Já se fala, entre nós, na criação de Fundos independentes, que nos poderão livrar, em parte, desse problema. A solução final, porém, está na criação da moeda única do MERCOSUL, que deve ser denominada “SUR” , e que colocará os nossos países sul –americanos numa posição de força financeira capaz de enfrentar todos os desdobramentos futuros da crise americana, que, segundo SOROS, é a pior, desde a Segunda Guerra.