OS QUE GOSTAM DA GUERRA

A guerra, atualmente – como essa, desencadeada pelo Estado de Israel – é considerada um ilícito internacional, diante das normas que exigem que sejam esgotadas todas as opções pacíficas para superar os conflitos supra estatais.

No século 19, contudo, quando ainda se falava em guerras justas, alguns autores se dedicavam a estudar o que se pode chamar, ainda que impropriamente, de uma filosofia da guerra.

CARL VON CLAUSEWITZ, , no seu livro clássico Vom Kriege, publicado em 1832, afirmava que a guerra era a continuação da política por outros meios, o que valia como uma recomendação de que aqueles que se envolvessem numa guerra, tivessem claramente em mente os fins políticos que desejavam impor pela força aos inimigos.

Alguns, mais radicais, acreditam, porém, no esquema inverso, e querem fazer da política a continuação da guerra por outros meios, como parece ser a atual pretensão do Estado de Israel ao recusar a trégua sugerida pela França e ameaçar, a qualquer momento, promover a invasão, por terra, da Faixa de Gaza, ampliando o massacre da população civil palestina.

Com a extraordinária superioridade militar que detém, o Estado de Israel aparentemente confia em que a guerra lhe trará vantagens políticas, diante da tibieza dos governantes da maioria dos países árabes, e da tradicional conivência dos chefes de governo ocidentais.

Parte da mídia, comprometida com essa ideologia, faz, por um lado, propaganda da guerra, e coloca, por outro lado, num mesmo pé de igualdade, as ações bélicas do Estado de Israel e do Hamas, para dar a impressão de que tratam, com isenção, ambas as partes envolvidas no conflito.

É preciso estabelecer, contudo, uma hierarquia de valores, para impedir que a desproporção das medidas tomadas pelo Estado de Israel seja admitida como um pressuposto e possa se repetir em casos futuros.


A DIGNIDADE DO POVO PALESTINO

Na Metafísica dos Costumes, ao formular a Doutrina dos Elementos da Ética, escreve KANT o seguinte:

“ O respeito que tenho pelos outros ou o que o outro pode exigir de mim é, portanto, o reconhecimento de uma dignidade em outros seres humanos, isto é, de um valor que não tem preço, nenhum equivalente pelo qual o objeto avaliado pode ser permutado. Julgar alguma coisa como sendo destituída de valor é desprezo.”

Essa consulta a KANT me ocorreu depois que ouvi, na televisão, uma brasileira, habitante da Faixa de Gaza, falando a um repórter através de um telefone celular, sob o fogo dos bombardeios da Força Aérea israelense, afirmando que nada pior podia acontecer a ela do que aquilo que lhe tinha sido imposto por Israel, mandando, em conclusão, uma mensagem esperançosa à sua família no Brasil de que qualquer coisa que a esperasse no futuro ( inclusive a sua morte ) só podia ser melhor para ela.

Os dirigentes do Estado de Israel demonizam os palestinos, considerando-os uns terroristas primitivos que nada valem e não respeitam a dignidade das pessoas que constituem o povo palestino.

Mas a opinião pública não concorda com tal desprezo e os cidadãos, no mundo todo, inclusive nos EUA, saem à rua para protestar.

Assim, por um lado, as pessoas na Faixa de Gaza sentem-se desrespeitadas em sua dignidade a tal ponto que consideram não ter nada mais a perder; enquanto, por outro lado, a opinião pública mundial repudia o desprezo do Estado de Israel pelo povo vizinho.

Deduz-se daí que o Hamas, que vinha perdendo prestígio, em apenas quatro dias de bombardeios israelenses, tornou-se, indiretamente, o vencedor político da guerra


TEMOS MAIS O QUE FAZER !

Não é difícil entender o quadro político que emoldura o cenário dessa “guerra total” do Estado de Israel contra o povo palestino da Faixa de Gaza.

O exército israelense, tido como heróico e invencível durante quase 50 anos, quebrou a cara ao invadir o Líbano, em 2006, quando foi, de certa forma, derrotado pelo Hezbollah, do que resultou o desgaste do primeiro ministro EHUD OLMERT, obrigado a renunciar, para aguardar atualmente no posto o resultado da próxima eleição de fevereiro de 2009.

Para essa eleição concorrem o atual ministro da Defesa, EHUD BARAK, o indefectível Bibi (BINYAMIN NETANYAHU ) e a ministra das Relações Exteriores TZIPI LIVNI, cada um dos quais querendo se mostrar mais radical e exasperado do que o outro – bastando dizer que o mais moderado deles é o ministro BARAK, o mesmo que está pregando a guerra aberta e total contra o Hamas.

Como o Estado de Israel não tem muito poder a mais do que aquele que lhe dá a sua poderosíssima força militar – que obriga os israelenses a viver em guerra permanente, como se não fossem um Estado, mas um verdadeiro quartel – os líderes políticos desse Estado alimentam-se dos conflitos bélicos. Eles pretendem, inclusive, bombardear as instalações nucleares do Irã, a despeito da morte de milhares de soldados americanos que isso possa causar ( os que estão no Iraque ficarão no meio de um fogo cruzado.)

O uso político da força militar, porém, ficou recentemente desgastado, a ponto de os americanos deverem estar pensando com os seus botões se vale a pena embarcar na aventura dos dirigentes de Israel.

Está ficando cada vez mais claro que a crise do Oriente Médio só pode se resolver através de negociações políticas das quais devem participar todas as partes envolvidas – EUA, UE, Israel, Siria, Irã, Jordânia, Arábia Saudita, Autoridade Palestina, Hamas, Hezzbollah, etc – o que os dirigentes israelenses aparentemente não querem admitir, na suposição, talvez, de que terão do lado deles, incondicionalmente, os EUA, como vem ocorrendo há muito tempo.

Os Estados Unidos, porém, têm mais o que fazer do que levar pancada por causa de Israel, mesmo porque estão vivendo dificuldades financeiras internas e externas sem precedentes, às voltas com gravíssimos problemas, inclusive de natureza ecológica.

As previsões de BARAK, de TZIPI e de NETANYAHU de que os americanos irão apoiar as suas ações militares contra os palestinos na Faixa de Gaza poderão, portanto, não se concretizar, assim como não se abriu “o guarda-chuva internacional” político que as autoridades israelenses tentaram construir na Europa e na Rússia nos últimos meses.

Surgem, por outro lado, manifestações de solidariedade ao povo palestino por parte de líderes populares da região, o que assusta os dirigentes dos países árabes que exercem autoritariamente o poder.

Alguns governos têm as suas razões estratégicas para agir cautelosamente mas a opinião pública mundial não tem essas limitações e, como tende a tomar partido do mais fraco, pode desempenhar um papel decisivo no encaminhamento de uma solução diplomática para esse conflito.

Esses dois fatos novos – a ascensão de um novo governo nos Estados Unidos com características “liberais” – e a força da opinião pública mundial cansada de ver políticos quererem resolver militarmente questões que são predominantemente políticas, podem atrapalhar os planos politiqueiros que EHMU BARAK, TZIPI e BIBI tinham na cabeça quando decidiram bombardear e, eventualmente, invadir por terra a Faixa de Gaza.


ÍNDICES E INDEXADORES

O jornal O Globo de hoje publica uma reportagem de BRUNO ROSA e de PATRÍCIA DUARTE intitulada “Festival de previsões furadas”, em que são evidenciados inúmeros erros de previsão dos economistas, nos cenários por eles traçados no início do ano de 2008.

Em linhas gerais, o dólar deveria ser de R$ 1,80, e fechou o ano em R$ 2,40; o IGP-M deveria ser de 4,5% e acabou sendo de 10%; o IPCA seria de 4% e terminou sendo de 6%; a taxa SELIC prevista de 11% foi de 14%; o saldo comercial que se esperava de US$ 32 bilhões foi de US$ 24 bilhões e o déficit de US$ 4 bilhões foi de US$ 24 bilhões.

A reportagem mostra como são aleatórios as previsões, os números e os números-índices (estes adaptados, segundo a definição mais aceita, “por suas variações para indicar o crescimento ou diminuição de uma magnitude que não seja suscetível de medida acurada”).

Não obstante a oscilação dos números, dos índices e dos números índice, os analistas econômicos continuam a se apegar a eles enfaticamente, como se eles refletissem a verdade, o que, manifestamente, não ocorre, quer olhemos a situação retrospectivamente, quer em projeção futura.

O amor dos economistas pelos índices levou os juristas brasileiros a inventar uma novidade: o indexador, vocábulo que nem existia na língua portuguesa, e só entrou para os dicionários nos últimos 20 anos.

Os indexadores, embora também se expressem em números, são normas que utilizam os índices para reajustar atos jurídicos já definitivamente constituídos levitra sydney levitra sydney http://pharm….nde.fr/ http://pharm….nde.fr/.

Os indexadores, como se originam dos números índices, nascem incertos; mas, como são normas jurídicas, de aplicação obrigatória, tornam-se certezas para os devedores e credores.

O exemplo do IGP-M, que reajusta os aluguéis anualmente, pode nos ajudar a perceber a diferença entre índices e indexadores, e evidenciar o risco do emprego desses últimos. Os alugueres irão subir 9,8% não porque o IGP-M seja um indexador, pois ele é um índice. Mas, com base numa permissão legal, o índice IGP-M tornou-se, em praticamente todos os contratos de locação, um indexador, de modo que o que os índices econômicos incertos tornaram-se certezas jurídicas.

A Economia aplicada é uma Economia Jurídica, que utiliza o Direito como um instrumento de sua aplicação; sendo indispensável, portanto, que os juristas e os economistas aprendam a trabalhar juntos, sob pena de as suas previsões erradas, e suas certezas falsas, causarem-nos problemas.