A CONJUNÇÃO ADVERSATIVA “MAS”

Numa canção endereçada, indiretamente, ao ex-presidente Geisel dizia Chico Buarque: “você não gosta de mim, MAS a sua filha gosta”.

Em resposta, agora, à uma provocação do ex-presidente Fernando Henrique, Lula teve uma reação semelhante ao dizer: não sou tão erudito como você, MAS sei governar melhor.


SEGREGAÇÃO, no que dá.

O jornal GLOBO de hoje publica a seguinte declaração do primeiro ministro de Israel, Ehud Olmert, favorável à criação do Estado Palestino:

“Se chegar o dia em que a solução de um duplo Estado fracasse, e nós enfrentarmos uma luta como a África do Sul por direito igual de voto, o Estado de Israel estará acabado.”

Ele não poderia ser mais claro. Os israelenses afinal – menos os da extrema direita – perceberam que, mais cedo ou mais tarde, se tornarão minoria no território em que vivem e que, para perdurarem como Estado, com as características atuais, é crucial que seja criado um Estado palestino. O tempo, em outras palavras, corre contra o israelenses, que, na próxima geração, poderão ver palestinos serem eleitos, democraticamente, para chefiá-los. Na prática isso significa que Nizar Rayan, líder do Hamas, que é bom de voto, pode acabar sendo eleito, no futuro, primeiro ministro de Israel, o que, certamente, deve soar como uma uma piada de mau gosto aos ouvidos de radicais como Netanyahu …

A comparação que Olmert faz da situação do Estado de Israel com o “apartheid”, que durou de 1948 a 1990 na África do Sul, é sintomática e revela no que dá a segregação : os negros, afinal, ali assumiram o poder, mostrando que a discriminação pode resultar, no final das contas, num mau negócio .

A reunião, agora, em Annapolis, nos EUA, dos representantes dos Estados árabes e dos israelenses para estabelecer as bases da superação de uma guerra de quase 60 anos entre os dois povos é, portanto, inegavelmente, um ponto de partida para a solução do conflito, malgrado a descrença dos sectários dos dois lados. Há várias divergências a ser superadas mas o passo decisivo já foi dado: os dois grupos , ao se reunirem, reconheceram, implicitamente, que as duas nações envolvidas, a israelense e a palestina, devem sobreviver como Estados, nos territórios que forem definidos por acordo.


N Ã O

Voto pelo “não” no plebiscito de domingo próximo na Venezuela destinado a referendar a reforma constitucional aprovada pelo Congresso que, dentre outras medidas, extingue a autonomia do Banco Central instituída pela Carta de 1999.

Pelo que se pode perceber através das notícias publicadas nos jornais brasileiros, a reforma constitucional venezuelana opta – principiologicamente, digamos assim – por normas abertas, na tentativa de orientar o intérprete a adotar certos programas, imaginando que eles possam converter-se, automaticamente, em realidade, pelo simples fato de terem sido propostos.

Como se escrevesse para o caso concreto, criticando os termos vagos e ideológicos em que estão redigidos alguns artigos da reforma, adverte João Guilherme Sauer no prefácio do meu livro “A face legal do dinheiro”, editado no Rio de Janeiro, pela RENOVAR:

“Uma das formas de relaxamento da vinculação do aplicador à lei é a volatização dos conceitos jurídicos, permitindo que eles tenham conotações diferentes e, muitas vezes, divergentes, nas diversas estruturas normativas, ora nas hipóteses legais, ora nas conseqüentes, ora em ambas”.

A reforma constitucional da Venezuela, enfim, pode constituir-se num retrocesso jurídico que talvez sirva para atrapalhar, mais do que para respaldar, a pretendida instauração do socialismo naquele país.


ALGUMAS IMPRESSÕES LOCAIS

A impressão que me ficou, nesses dias que passei por aqui, é de que o povo americano já se cansou, efetivamente, de Bush, embora continue a prezar a instituicao “presidência da republica” que ele por ora representa.

Por outro lado, estão fartos da guerra do Iraque, mas tratam os combatentes com muito respeito, parecendo não se importar com o sofrimento que impuseram ao povo iraquianoo.

A derrota de Howard, na Australia – como as vitórias anteriores de Zapatero, na Espanha, e de Gordon Brown, na Inglaterra – demonstram que a opinão pública daqueles paises quiseram dar uma resposta clara quanto às responsabilidades políticas dos seus governantes pela decisão de participar da guerra.

As coisas só deverão, porém, ficar mais evidentes, por aqui, depois que for eleito o próximo presidente e a situação puder ser analisada com mais distanciamento. O julgamento de Bush e Cheney vai ser, então, muito severo, e ambos podem vir a ser responsabilizados juridicamente pelo que fizeram ( decretar uma guerra por motivo inexistente).

De qualquer modo, as cartas do jogo internacional foram de novo embaralhadas sendo inevitável a participação de novos atores como já está, aliás, começando o ocorrer, com o convite à Siria, por exemplo, para participar da reunião de cúpula de amanhã, dia 27, sobre o conflito palestino cujos resultados, se positivos, serão o grande legado da Secretaria Condoleza Rice.