“CHERCHEZ LA FEMME”

Como todos sabem, essa expressão foi cunhada, em 1857, pelo escritor francês Alexandre Dumas, no seu romance Conde de Monte Cristo, onde figura na seguinte frase: “Vous connaissez sa maxime, lorsqu’il veut découvrir un secret quelconque: cherchez la femme; dans ce cas la femme n’a pas été difficile à trouver” ( que, em tradução livre, significa “vocês conhecem seu lema, quando ele quer descobrir algum segredo: procurem a mulher; neste caso, a mulher não é difícil de encontrar”)

Mais tarde essa frase foi adotada na língua inglesa por O. Henry e tornou-se o título do seu conto “Cherchez la femme” que ficou mundialmente célebre a partir de 1909.

Como freqüentemente acontece, a expressão “cherchez la femme” tem um sentido mais amplo do que o literal: não quer dizer, apenas, procure a mulher; quer dizer que devemos procurar o recôndito motivo da atitude das pessoas, que em geral é uma mulher, mas pode não ser.

Tais reflexões me ocorreram a propósito da política de segurança do Estado do Rio de Janeiro que se baseia, oficialmente, numa “carta branca” outorgada à polícia local para matar supostos bandidos, visando desalojar o tráfico das comunidades pobres antes de fazer, nelas, obras de melhoramento urbano com os recursos federais provenientes do PAC.

Eu tinha ficado preocupado, tempos atrás, com o discurso belicoso do governador, que dera entrevistas à imprensa, afirmando que o seu governo estava “em guerra” contra os traficantes de drogas, tendo postado, em 24 de maio de 2007, um Blog sobre o tema, intitulado “Um governador de guerra”, inspirado no epíteto que George Bush no início de seu governo se atribuiu dizendo-se um “presidente de guerra”.

Mal sabia eu, na ocasião, que o inspirador da atual política de segurança do Estado do Rio de Janeiro , era um outro republicano norte americano, Richard Nixon que, no seu governo, instaurou o modelo que está sendo aplicado agora aqui no Estado, chamado “war on drugs.”

Tive notícia disso agora através da entrevista ao jornal Globo, da última 6ª. Feira, dia 19, na qual o ex-secretário nacional de segurança Pública, Walter Maeirovicth, criticando a política de confronto adotada, esclareceu que tal política segue a filosofia americana de guerra às drogas iniciada nos EUA em 1971 e que ali vige até hoje:

Segundo Maeirovicht : “é uma política totalmente equivocada, que não funcionou nos EUA e não vai funcionar aqui”.

Está aí a explicação para a decisão do governador do Estado – fugindo de seu perfil – de ter dado à violentíssima polícia do Rio autorização para matar. A escola norte americana da “guerra ao terror”, da “guerra das estrelas”, “ da terceira guerra mundial” , de guerra, enfim, contra tudo contaminou-nos , e gerou a situação a que estamos presenciando.

Se o governador Sérgio Cabral não quiser parar de prejudicar a sua imagem de homem público, e não mandar o secretário Beltrame suspender essa prática, a sua situação política ficará muito enfraquecida.

Não sei qual era a base jurídica do governo Nixon para implantar a sua “war on drugs”.

O fato é que esse tipo de ação, em que a polícia – como se fosse composta de zero-zero-setes –tem licença para matar, no Brasil é ilegal e inconstitucional, e pode ensejar ações por crime de responsabilidade.

Estão desvendadas, de qualquer modo, as razões ocultas da política de segurança do governador do Estado do Rio de Janeiro: ele está seguindo a escola dos conservadores norte americanos, a mesma que os levou à fracassada invasão do Iraque.


Triste mundo

Está sendo muito ruim viver no mundo atual, em que os dois homens públicos mais poderosos ainda são George W. Bush e … Dick Cheney.


RETÓRICA TOTALITÁRIA

O presidente George Bush declarou, ontem, aos demais líderes mundiais que se eles “estiverem interessados em evitar uma terceira guerra mundial, devem impedir que os iranianos tenham conhecimento necessário para fabricar a arma nuclear.”

Lida na ordem direta, essa frase expressa a intenção formal de Bush de acionar o arsenal nuclear caso os interesses da sua política no Oriente Médio sejam contrariados.

A comparação histórica que ele tenta fazer entre a situação atual com a que o mundo sofreu na época da Segunda Grande Guerra é infeliz e imprópria: primeiro, porque aquele foi um tempo catastrófico, do qual os seres humanos até hoje tentam distanciar-se; segundo, a ameaça de nuclearização do Irã não é similar a que representavam os nazistas naquele período.

Trata-se, de qualquer modo, de uma de declaração muito grave – que até então nunca tinha sido ouvida partindo do Chefe de um Estado tão poderoso como os EUA – que traz conseqüências nefastas para toda a Humanidade, devendo ser repelida, desde logo, com veemência.

Não é admissível que um líder irresponsável possa nos ameaçar a todos impunemente com declarações desse tipo.

Por último, ainda que os EUA estejam se enfraquecendo política, econômica e moralmente, e alguns possam ver na supremacia militar o seu maior trunfo no jogo de poder internacional, o interesse na deflagração de uma Terceira Guerra não é um objetivo nacional permanente americano, pois ao seu término a situação dos Estados Unidos seria muito pior do que a atual.


VERSOS SATÍRICOS ( 1956 )

I – A PEDRA DO CAMINHO

Ah, Drummond ! Aquela pedra
No seu caminho, Drummond,
Era eu, no seu caminho
Eu sou a pedra, Drummond !

Não estava ali sem motivo
Eu o tinha, e muito bom
Sou pedra, mas raciocino
Sou muito “viva” Drummond.

Tanto sou viva que, ontem,
Era só pedra; hoje estou
Quase imortal, e sou verso,
Meio maluco, mas sou.

Antes de ser pra você
Fui pedra pra muita gente
Mas era, pra cada um,
Uma pedra diferente.

Fui pedra de quebrar vidro
E de matar passarinho
Veja você o que fui antes
De ser pedra do caminho.

Fui pedra de virar lata
Fui pedra de atiradeira
Já quebrei muita cabeça,
Já fui cruel, traiçoeira.

Vivia desesperada
Abandonada, esquecida
Querendo mudar de sorte
Querendo mudar de vida.

Quando soube que existia
Morava perto de mim
Eu, então, pro seu caminho
Instantaneamente vim.

Lembrei-me da bruta sorte
De um corvo, com quem me dou
E é famoso por graça
Do Edgard Allan Poe

Pensei comigo: é poeta
Verá em mim qualquer coisa
Fiquei um pouco indecisa:
“ Vamos lá, ousa ou não ousa ?

Ousei enfim, dei-me bem
Pra glória fui arrastada
Você me tornou poema
Fez-me famosa e falada

E, sem mais, quero deixar-lhe
Minha afeição, meu carinho.
Respeitosamente sou
Sua “Pedra do Caminho”

II – E AGORA DRUMMOND ?

Eu sou José. Recebi
Os versos com que me honraste
E por eles percebi
Que achas que eu sou um traste.
( Mas acho que te enganaste )

Vejamos, portanto, e pois
E me dirás, ao depois
Quem tem razão, de nós dois.

A luz apagou ? Fui eu
Que pra ela disse: “ Vai-te”
E pressionei o botão
Do interruptor da Light.

Sem mulher ? É bem verdade
Há uns três meses que estou
Queres mais felicidade
Do que esta que me encontrou ?

Minha mulher era magra
Ranzinza, triste, medonha
E não desejo jamais
Que ela voltar me proponha.

Fumar ? Não fumo, pois creio
Que não faz bem pro pulmão
Cuspir ? Não posso, evidente:
É falta de educação.

E há até um decreto
Que eu li, não lembro onde
Que pune até o projeto
De cuspir … ah!, foi no bonde

No bonde, que se não veio
Não causou perturbação
O bonde vem sempre cheio
Tomei mesmo um lotação.

Discurso ? Não tenho mesmo,
Mas digo, se te aprouver
Que tive um que emprestei
Para um Ministro qualquer

E esse discurso, tão bom
Causo pânico, me lembro
E foi usado, Drummond,
Num dia onze, em novembro.

Minha gula e meu jejum
Se amenizam entre si.
Só não posso beber rum
Posso beber parati.

Ir a Minas ? Vou tão breve
Meu tempo me permitir
Que um vento bom lá me leve
Nada me impeça de ir.

Minas existe e perdura
Vi no mapa do escritório
As minas que não há mais
São minerais … e de tório.

Ora, ora, se seu tocasse
Uma valsa vienense
Não há ninguém que hoje toque
Uma valsinha e compense.

Os tempos já estão mudados
Outros tempos ficam atrás
Não toco valsa, prefiro,
Um concerto de cool jazz.

Sozinho no escuro ? Não
Equivocaste-te, amigo
Não viste, tal o negrume
Quem se encontrava comigo.

Havia alguém: uma moça
Das muitas mais que consigo
E cujo nome resguardo
Por ser discreto não digo.

Cavalo preto ? Não tenho
Não há um que não estaque
Aliás, me locomovo
Somente de Cadillac

Queres saber pra onde eu marcho ?
Eu te digo, com alegria
Marcho firme e bem disposto
Para a seção da autarquia
Onde sou chefe e onde ganho
Vinte e três vezes um conto
E que tempo só me tira
O de assinar o meu ponto.

Por isso, vês, te enganaste
O meu viver é bem bom
“E agora”? – me perguntaste
“E agora”? – digo, Drummond…


O QUE SABEMOS DA CHINA ?

As celebrações do 17º Congresso Nacional do Partido Comunista, largamente noticiadas pela mídia brasileira, estão servindo para demonstrar o quanto ignoramos sobre o que se passa na China.

Essa dificuldade que temos em compreender o tipo de Estado chinês atual resulta da ótica ideológica empregada nas análises que lemos na imprensa brasileira, como é caso do editorial de hoje do Globo, sob o título “O avesso da China”, que é um verdadeiro samba de crioulo doido.

O editorial começa afirmando que “a China foi capaz de importar o sistema capitalista para dentro do socialismo de partido único” e termina dizendo não saber até quando o governo chinês “conseguirá manter sob controle uma população inevitavelmente conquistada pelos sonhos e ambições inerentes a qualquer sociedade capitalista.”

Quais serão esses sonhos e ambições inerentes à qualquer sociedade capitalista ? Serão bons, serão maus, serão certos, serão falsos. As agressões ao meio ambiente, cada vez maiores na China, são sonhos e ambições capitalistas ? A frase final do editorial destina-se, enfim, a esclarecer ou a obscurecer a realidade ?

Por outro lado, é claro que a China não importou o “sistema capitalista para dentro do socialismo do partido único”, mesmo porque o Estado chinês, o capitalismo, o socialismo e o partido único não podem ser empacotados no mesmo saco, porque não são noções que tenham o significado que lhes atribui, canhestramente, o editorial.

Embora não seja fácil entender o que se passa efetivamente na China, se tentarmos ser mais racionais e menos ideológicos – e partir de alguns pontos de consenso – podemos chegar a algumas conclusões, pelo menos preliminares.

Para começar, a China é um Estado autoritário: não sendo, portanto, democrática, o que é uma grande desvantagem na sua comparação com a Índia e o Brasil, por exemplo.

Do ponto de vista econômico a China é uma sociedade socialista, e não capitalista, embora esteja cada vez mais empregando a moeda como forma de organizar a conduta das pessoas.

Diferentemente da antiga União Soviética, que fazia uma propaganda intensa do comunismo, a China não parece preocupada em exportar a sua maneira de viver para outros países, malgrado a inegável influência que está conseguindo exercer, no vácuo deixado pelo surpreendente desprestígio dos EUA, que se acelerou gravemente com a ascensão ao poder dos neo conservadores americanos, liderados pela dupla Bush/Cheney.

As dificuldades em compreender as mudanças que estão ocorrendo no mundo são, portanto, o resultado – especialmente para nós, brasileiros, que vivemos nesta “área de influência” – da sensível perda de poder dos Estados Unidos, o que, à sua maneira, é refletido no editorial do Globo de hoje.