O HORROR DA GUERRA

As televisões dos EUA continuam a atuar animadamente, como se os americanos não estivessem em guerra.

Diferentemente do que ocorreu no final do conflito do Vietnam – época em que o exército não era ainda profissionalizado – quando a fotografia de um fuzileiro naval, ateando fogo com um isqueiro Zipper, ao telhado de palha de uma pequena palhoça, criou uma comoção nacional, a morte dos soldados americanos e os protestos de algumas mães desesperadas parecem não encontrar eco na opinião pública interna.

A tática de Bush e de Cheney, de não marcar data para a retirada e, com isso, jogar o problema no colo na futura Administração ( provavelmente ) democrata está, aparentemente, dando certo. Quanto mais tarde acabar a guerra para eles é melhor, porque não há boa solução à vista, e eles retardam um processo judicial a que podem, pelo menos em tese, vir a responder por terem mentido ao povo para obter apoio para a invasão ilegal do Iraque. Para isso eles precisam manter a população entretida com o seu dia a dia imediato, como se a guerra não significasse nada.

Não obstante essa espécie de anestesia coletiva, estimulada pelo governo, e o cinismo que a opulência costuma provocar nas pessoas, o atentado suicida de ontem no Iraque, que matou pelo menos 500 pessoas – civis, crianças, todos inocentes – não pode deixar de provocar uma grande comoção.

Isso porque a responsabilidade jurídica pela carnificina praticada não é, apenas, dos insurgentes, mas tambem do governo americano que insiste em não sair de um pais que foi invadido sem motivo, onde os soldados americanos nunca deveriam ter entrado.

Não é verdade – como alardeiam os estrategistas militares – que a retirada das tropas estrangeiras vá aumentar a insegurança da população local.

Esse, aliás, parece ser o trágico recado que a Al-Qaeda –supostamente a organizadora dos atentados – está pretendendo passar para a opinião pública americana e mundial.

De qualquer modo, ficar no Iraque mais tempo é fazer apenas o jogo politiqueiro da Casa Branca.

Esperemos que os politicos democratas consigam mostrar isso claramente para a opinião pública americana.


Impressões de um passeio de Metrô em São Petersburgo

A construção da primeira fase do Metrô de São Petersburgo foi concluída em 1955, cerca de dez anos depois do fim da Segunda Guerra. Embora não seja tão majestoso como o de Moscou é muito bem acabado e de bom gosto.

O zelo na construção do Metrô dessa cidade russa demonstra como os russos, em pleno “regime soviético”( como eles denominam a sua vivência socialista anterior ) acreditavam nas virtudes do seu sistema social. As estações, projetadas para o povo, e não para as elites, são deliberadamente amplas, ricas, calçadas de granito e repletas de símbolos didáticos ( nos quais estão presentes a foice e o martelo) elegantemente colocados ao lado de estátuas de tamanho médio, encimando as colunas junto às paredes, que representam trabalhadores saudáveis, mulheres do povo conduzindo crianças, numa expressão típica do chamado “realismo soviético”.

Vivendo-se essa experiência, mesmo rápida, de conhecer algumas estações do Metrô de São Petersburgo, por onde circula, atualmente, uma população ordeira, aparentemente bem vestida e bem alimentada, surge a pergunta de porque o sistema soviético não deu certo.

Não nos iludamos dizendo que a razão do fracasso é a superioridade do capitalismo; o que o governo Bush está tendo o mérito de demonstrar.

O problema é que qualquer sistema social, para funcionar bem, numa sociedade moderna, depende de um grande número de informações, muito maior do que uma burocracia centralizada e violenta é capaz de processar.

O uso intensivo do dinheiro – que não ocorria no sistema soviético – simplifica a comunicação entre as pessoas, e torna mais fácil a circulação rápida das informações, essencial nos dias atuais.

O emprego da moeda como uma modalidade de organização jurídica estatal menos burocratizada – como ocorre, hoje em dia, em outros países socialistas ( como a Noruega, por exemplo ) ou na China atual, em sua rápida transição para um regime diverso do comunismo – evidencia que o dinheiro, que não se confunde com poder aquisitivo, é uma forma eficaz de se ordenar juridicamente as condutas das pessoas na sociedade.

Por isso ele é um valor.


Reflexoes preliminares sobre poder aquisitivo

Se refletirmos sobre o trecho da “Riqueza das Nações” em que ADAM SMITH afirma que “seria ridículo tentar provar, seriamente, que a riqueza não consiste no dinheiro, nem no ouro, nem na prata, mas no que o dinheiro compra, e é valioso apenas por comprar” chegaremos a algumas conclusões interessantes.
Ao dizer que a riqueza não consiste nas peças monetárias, mas no que elas compram, SMITH não distingue entre moeda e peça monetária.
Ele não se limita, porém, a confundir moeda e peça monetária porque tambem passa, a seguir, do plano normativo para o plano da realidade, ao sugerir que a riqueza ( plano da realidade ) é o valor ( plano normativo ).
Com efeito, na primeira frase do texto de SMITH dinheiro significa peça monetária; na segunda significa moeda. Mais tarde há uma assemelhação ( ainda que implícita ) de peça monetária com valor; e, pouco adiante, na última frase, de valor com dinheiro e com poder de compra, e, conseqüentemente, de valor com riqueza, em contradição com o que ele afirmou inicialmente ao dizer que a riqueza não consiste em dinheiro.
Essa noção de poder aquisitivo desenvolvida por ADAM SMITH foi muito importante para o triunfo do sistema capitalista, mas consiste numa deturpação do conceito de valor, como pretendemos demonstrar em outras oportunidades.


OS RISCOS DA IRRACIONALIDADE

A dúvida atual sobre as causas do acidente da TAM é se o erro na posição da manete foi causado pelo piloto ou pelo equipamento.

Amigos meus, contudo,não obstante os novos rumos da investigação, continuam absolutamente convencidos, como estiveram desde o início, de que o culpado de tudo é o presidente Lula.

O risco dessa irracionalidade são os danos que qualquer perda coletiva de razão costuma causar.


UM DEBATE SOBRE TAXAS DE JUROS E DE CÂMBIO

A publicação, hoje, no Caderno de Economia do Estadão, do extrato de um debate, coordenado pelo jornalista Celso Ming, entre os professores Bresser Pereira e Ilan Gldfajn – sob o título “A política de juros e de câmbio está no rumo do crescimento ? “ – traz a público argumentos úteis para encaminhar uma discussão que, a meu ver, é essencial mas andava envolta em silêncio e obscuridade.

Trata-se de saber se há uma relação entre os juros altos e a valorização excessiva do Real e, caso positivo, quais os caminhos para uma normalização monetária definitiva, que nos equipare aos demais países

Sobre a disciplina atual dos juros disse o professor Bresser Pereira o seguinte:

“No Brasil, não existe taxa de juros de longo prazo, mas existe um proxy, que é a taxa de juros que corresponde à taxa de juros do Tesouro Americano mais o spread, a taxa de risco Brasil. Essa taxa é de 6% nominal e em torno de 4% em termos reais. E a nossa taxa de juros definida pelo BC é de 8% em termos reais. É o dobro. Não tem razão para ser desse tamanho”.

Entende Bresser que a determinação de reduzir a taxa de juros não depende apenas do Banco Central e deve ser uma decisão de governo, pois, segundo ele, é indispensável uma redução brutal das despesas públicas. Diz ele, a propósito :

“ Ao mesmo tempo que você reduz a demanda por esse lado, baixa a taxa de juros. Uma coisa compensa a outra e, num prazo de 6 a 8 meses, resolveria esse problema. Mas é preciso respirar fundo, acreditar que isso possa ser feito e fazê-lo.”

Sobre a famigerada taxa SELIC afirma Bresser que “ é preciso uma reforma, desvinculando a SELIC dos títulos públicos.” Na verdade, segundo ele, é preciso acabar com o sistema Selic, (desconectando) as taxas de juros de longo e curto prazos. Dessa forma teremos uma taxa de juros de mercado. O Brasil é o único país do mundo cuja taxa de juros é tabelada. Nos demais países o Banco Central define a taxa de juros de curto prazo. A taxa de juros de longo prazo é definida pelo mercado e incide sobre os títulos do governo. Aqui não.”

Explicando, melhor, seu ponto de vista, afirma o ex-ministro:

“Quando o Banco Central define a taxa de juros de curto prazo, ele estabelece também a taxa de juros que o governo tem que pagar para os seus títulos. Isso é um escândalo. Foi algo que foi feito em 1986, num período de inflação elevada, para segurar o mercado financeiro que estava arrebentando. Porque não se modificou depois ? Porque o Brasil continua sendo o único país do mundo que tem esse sistema ? Quando isso for eliminado, o Banco Central vai definir a taxa de juros de curto prazo. E a taxa de juros que o governo paga será o mercado que vai baixar. No mundo, as taxas de juros de curto prazo definidas pelos bancos centrais oscilam entre zero e 1,5%”

Abordando, por último, com uma franqueza exemplar, o problema da Indexação remanescente (assunto que, a meu ver, tem sido sistematicamente escamoteado em discussões sobre o tema ) , declara Bresser:

“Uma outra coisa que seria importante nesse processo seria acabar com toda e qualquer forma de indexação que ainda exista. Indexação é uma desgraça para qualquer país e o Brasil ainda tem isso. Mas por que se preocupar com isso se nunca houve tanto aumento de crédito e o consumo está em alta ? Por causa do famoso câmbio. Essa taxa de juros causa a apreciação do câmbio. A apreciação do câmbio aumenta os salários, o consumo e o crédito. Nós sabemos que o crescimento econômico é um resultado de um projeto de longo prazo. Sabemos que o que estamos fazendo é viver do curto prazo, da baixa poupança, do baixo investimento, ao invés de termos uma estratégia de desenvolvimento.”

Parece haver, portanto, uma forte relação entre a elevada taxa de juros e a valorização do Real, que está dando margem a tanta especulação.

O debate promovido por Celso Ming pode ser assistido também em vídeo, na íntegra, acessando-se o endereço eletrônico www.estadao.com.br/e/b9