O VIADUTO DOS CABRITOS ALADOS

Quando vi aquela imagem na primeira página dos jornais ( sob manchete que informava que 46 pessoas tinham acabado de ser presas pela Polícia Federal envolvidas” em máfia de obras públicas”): aquela imagem da obra já concluída de um viaduto no Maranhão,elevado no espaço, com as duas extremidades distantes uns vinte metros do chão,como se ligassem o nada a coisa alguma, lembrei-me da uma história que o engenheiro carioca Armando Coelho de Freitas contava, explicando porque o Viaduto dos Cabritos, em Campo Grande, na cidade do Rio de Janeiro tinha recebido, na década de 1960, esse nome.

O Departamento de Estradas de Rodagens do antigo Estado da Guanabara, do qual ele era o Diretor-Geral, projetara um viaduto no cruzamento da antiga avenida das Américas com uma outra via, que ia para Santa Cruz, porque aquele local teria um grande movimento de carros no futuro, o que efetivamente ocorreu.

O então governador do Estado, Carlos Lacerda, num primeiro momento, vetou a construção do viaduto, dizendo que por ele só iriam passar cabritos – mas acabou vencido pela insistência do Armando Coelho de Freitas que, afinal, em homenagem ao episódio, denominou a obra de Viaduto dos Cabritos, sua designação até hoje.

No caso do viaduto do Maranhão, porém, de responsabilidade, segundo os jornais, da Construtora Gautama – cujas operações motivaram a chamada Operação Navalha, da Polícia Federal – a imagem que o retrata suspenso e isolado, sem que os seus acessos estejam ligando a qualquer estrada, sugere que ele, no presente e no futuro, venha a servir, apenas, para a passagem eventual de cabritos alados…


A PAZ, A MORAL E O DIREITO

A tendência da maioria das pessoas normais é considerar a guerra entre Estados uma imoralidade, especialmente depois que a gente assiste, nos meios de comunicação, a uma exibição de imagens das crianças estropiadas, algumas com sinais do pânico provocado pela antevisão do seu impiedoso e inexplicável assassinato.

Esse horror provoca, em nosso íntimo, uma reação: execrarmos a guerra e expressar, se possível de público, a nossa condenação contra ela.

O movimento da paz através do direito pretende que a condenação da guerra entre os Estados não seja apenas ética, mas também jurídica.

Resta a questão de saber a modalidade de sanção externa eficaz que deve ser aplicada em caso de guerra.

Se o modelo da ordem jurídica internacional seguisse, estritamente, o formato das ordens jurídicas nacionais poder-se-ia cogitar de estabelecer uma força internacional centralizada, sob o comando de um organismo internacional, que pudesse intervir, violentamente, não só para prevenir uma situação de guerra, como, após um julgamento adequado, punir os beligerantes.

Surgem, aqui, dois problemas: primeiro , não parece possível, na prática, criar uma força internacional mais forte do que alguns exércitos nacionais ( hoje, por exemplo, seria necessário que a ONU tivesse um poderio militar superior ao dos EUA e da China ); segundo, não é fácil conceber uma guerra ( ainda que “justa” ) para acabar com uma outra guerra.

A sanção internacional contra a guerra entre Estados nacionais só poderia ser uma sanção não violenta.


OS HOMENS DO PRESIDENTE, E DO VICE

No dia 30 de junho o ex-subsecretário de defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, sairá da presidência do Banco Mundial. Ele fora um dos maiores incentivadores da invasão do Iraque, e fazia dupla com Donald Rumsfeld, que também já caiu.

Outro dia foi John Bolton que deixou de ser o embaixador americano na ONU, a entidade que ele queria ver destruída. Karl Rove, por sua vez, o assessor de marketing político, embora ainda circule na intimidade dos corredores da Casa Branca, também perdeu seu cargo oficial.

Nomes com biografia mais respeitável, como Collin Powel – que deu lugar, no segundo mandato, à Condoleza Rice – e Tony Blair, igualmente atropelados pelo rolo compressor da equipe palaciana, sucumbiram.

Um a um os homens do presidente e do vice estão caindo, o que é um indicio de que quando os republicanos perderem a eleição tanto Bush, como, poderão ser julgados em Tribunais americanos e internacionais, pelas ilegalidades que … ainda estão cometendo.


ESPECULAÇÃO CONTRA O REAL

O Banco Central brasileiro, segundo parece, está cogitando colocar em prática uma nova estratégia para “desestimular aplicações especulativas no real.”

Ao que tudo indica, na onda do efetivo desprestígio mundial do dólar, está havendo um surto de manobras especulativas contra moedas dos países emergentes, especialmente a do Brasil, atualmente muito procurada.

Não há um controle válido centralizado ( nem mesmo eficazmente descentralizado ) do sistema financeiro internacional que se torna, por isso, suscetível de ser gerido por uma quantidade relativamente pequena de pessoas , que dispõem de recursos enormes, próprios e de terceiros, e podem encontrar brechas e nichos que permitam a obtenção de ganhos a curto prazo, de forma razoavelmente segura, através de ataques esporádicos contra os Tesouros nacionais de certos países.

A situação atual do câmbio no Brasil, portanto, não deve ser motivo de euforia, mas de preocupação para os brasileiros.

Como os investidores conseguem captar dinheiro a custo muito baixo, atualmente, especialmente nos EUA – onde a taxa de juros está a 5,25% ao ano – se eles aplicarem em real, podem ganhar muito, às nossas custas. Alguém, por exemplo, que aplicou “ US$ 100 mil em renda fixa no mercado brasileiro,em dezembro de 2006, quando a taxa de câmbio estava em R$ 2,13, e vendeu, hoje, com câmbio de R$ 1,95, ganhou em torno de US$ 10 mil, incluído nesse quantum “ a variação cambial do período e o diferencial de juros, calculado entre a taxa americana e a brasileira.”

Como o Tesouro brasileiro é credor em dólares, quanto mais a moeda americana cai, mais o Brasil perde dinheiro. Em outras palavras, a despeito do que alguns têm propalado, a queda do dólar está fazendo com que percamos dinheiro. O Tesouro só ganharia se o dólar subisse.

O dólar, aparentemente, vai continuar a cair e estará, em breve, a R$ 1,80, dependendo o que o Banco Central venha a fazer nos próximos dias.

Há muitas lições a extrair do que está ocorrendo hoje, com a nossa taxa de câmbio. A principal delas, a meu ver, é a necessidade de os países do MERCOSUL se unirem monetariamente para fortalecer os seus respectivos dinheiros nacionais, como a Europa soube fazer quando instituiu o Euro.


A LEI DA SELVA

O embaixador John Bolton, até recentemente representante dos EUA na ONU, declarou ao jornal britânico The Daily Telegraph (segundo informa o Estadão de hoje ) que “ se tivermos que escolher entre um Irã capaz de desenvolver armas nucleares e o uso da força, acho que esta tem de ser nossa opção”.

Trata-se, como se vê, de um argumento que prega o uso puro da força para resolver uma pendência internacional: que trata da questão atômica como se fosse matéria meramente de fato, a ser resolvida pela violência direta, cujo emprego deve ser imediato ou mesmo preventivo, quaisquer que sejam as conseqüências políticas e econômicas desse ato, que o próprio Bolton, como diz a nota do jornal, admite serem perigosas.

Os iranianos afirmam que o seu programa nuclear tem fins pacíficos e que obedece às leis internacionais, do que a opinião pública tem boas razões para duvidar. O remédio para essa questão, porém, não está em bombardear as instalações nucleares que estão sendo construídas no Irã, mas em negociar uma solução que atenda aos interesses da comunidade internacional.

Essa negociação não é fácil, evidentemente, mas não é impossível, e exige que os maiores interessados, Irã, EUA e União Européia, pelo menos, sentem-se numa mesa e discutam. A solução bélica, preconizada por Bolton seria catastrófica para todos nós, como vários especialistas já demonstraram de forma irrespondível, inclusive através de artigos publicados nos jornais de todo o mundo.

A tomada do poder dos EUA pelos “neo-conservadores” – dos quais Bolton é notório representante – que pregam, abertamente, a obediência à Lei das Selvas, deve despertar em todos nós a necessidade de revisitarmos as leis internacionais, particularmente as que disciplinam o uso da energia atômica.