CORRUPÇÃO, GUERRA E IRRACIONALIDADE

O economista Eduardo Gianetti da Fonseca participou, há poucos dias, de um painel na Globo News, discursando contra a corrupção, com a mesma desenvoltura com a qual, em abril de 2003, escrevera um longo texto na revista Época, defendendo a guerra do Iraque. Nesse artigo, que merece ser relido, vez por outra, ele afirmava, dentre outros absurdos, que a atuação dos americanos tinha sido “ uma sorte para a humanidade”, pois eles: “ .. exercem a condição de superpotência militar com razoável autocontrole, sem excessos, como certamente teriam cometido a Alemanha nazista e o império soviético.”

A guerra do Iraque recebeu, também, nos seus primórdios, uma cobertura jornalística internacional eufórica da revista Veja, com conteúdo fotográfico atualíssimo, ilustrando extensas reportagens, repletas de informações técnicas, assinadas por jornalistas em geral desconhecidos – o que faz supor que se tratava de material de propaganda. Trata-se da mesma revista que se dedica, atualmente, a alardear escândalos políticos nacionais, o último dos quais envolve o senador Renan Calheiros, presidente do Senado.

Não podemos nos esquecer, por outro lado, que o presidente, Paul Wolfowit, de triste lembrança, caracterizou a sua gestão no Banco Mundial, pelo combate globalizado à corrupção dos governos – ele que foi um dos principais incentivadores da guerra do Iraque, quando subsecretário de Defesa americano.

Essa postura, de pessoas e entidades, a favor das guerras terá alguma relação com as campanhas públicas contra a corrupção ? A minha resposta é afirmativa, na medida em que ambas são irracionais.

Houve um tempo em que os analistas consideravam que um pouco de corrupção poderia ajudar no desenvolvimento de nações muito frágeis, com muita burocracia, em que a criação de uma rede de negócios paralelos poderia contribuir para o crescimento econômico. Hoje, porém, é generalizada a opinião de que a corrupção atrapalha o desenvolvimento, porque ela contamina as decisões. Um juiz comprado, por exemplo, decide a favor de quem o comprou e não de quem “tem direito”. O mesmo ocorre quando um servidor público – ou mesmo de uma empresa privada – favorece alguém, em detrimento de outrem, por ter recebido vantagens.

Não devemos nos deixar levar, porém, pelo clima neo udenista ( como o denomina, com bom humor, o cronista Luiz Fernando Veríssimo ) que recrudesce no Brasil atualmente, e nos faz retornar aos tempos que antecederam o golpe militar de 1964, em que jornais como o Globo e a Tribuna da Imprensa pregavam, irados, contra a “subversão e a corrupção”que eles vislumbravam no governo democrático de Jango Goulart.

É preciso ter muito cuidado com essa irracionalidade que está voltando a grassar entre nós…


UM GOVERNADOR DE GUERRA

Em declaração divulgada ontem pela televisão o governador do Estado do Rio de Janeiro chamou os marginais do Complexo do Alemão de “verdadeiros terroristas” insistindo no discurso irracional que vem fazendo ultimamente para agradar à parte da população do Estado que vive amedrontada com as explosões de violência em nosso território nos últimos anos.

A irracionalidade desse discurso belicoso visa dar cobertura política a uma ação policial extremamente violenta, cujos planejamento e pormenores não são claros, nem foram suficientemente divulgados. Pode ser que agora, após a inspeção que o subprocurador-geral de Direitos Humanos, Leonardo de Souza Chaves, fez ontem no local – onde ele viu, segundo declarou, “mais truculência do que inteligência” – haja uma mudança da conduta do governo estadual nesse episódio, que já se arrasta há 24 dias.

Cabe aos governos dos Estados agir, sempre, dentro da mais estrita legalidade.É verdade que falar em legalidade no fragor de uma “batalha” ( que estaria sendo desencadeada, como diz o nosso governador, para “ salvar os moradores dos marginais”) pode parecer uma ingenuidade.”O estrépito das armas” – com lembra Grotius, nos Prolegômenos do seu livro fundamental “De jure belli ac pacis”, publicado em 1625 –“ impede os governantes de ouvir a voz das leis. “

O discurso da legalidade, contudo, é o discurso da razão. É um equívoco pensar que há uma solução militar – ou a curto prazo – para o problema da violência nas favelas do Rio de Janeiro. É preciso que o nosso governador saia, enquanto é tempo, do perigoso caminho da irracionalidade em que se meteu, que compromete o seu governo.


ESPECULAÇÃO A FAVOR DO REAL ?

Há uma impressão “mais ou menos disseminada no mercado financeiro”, diz Celso Ming, em seu artigo do Estadão de hoje, “de que há um ataque especulativo a favor do real.”

Essa opinião é correta, por um lado, mas incompleta, por outro.

Na verdade o que parece estar ocorrendo com o dólar está, de fato, acontecendo com o real – que é a única moeda sobre a qual o país exerce a sua soberania monetária.

A especulação que envolve o real, contudo, não é a seu favor, mas – como toda a especulação que se preza – contra a nossa moeda.

Parte da nossa dívida pública está atrelada à SELIC, que é um poderoso indexador, mais “forte”, atualmente, não só do que o real como, também, do que o dólar.

Essa parcela da dívida, indexada à SELIC, está hoje 29,3 bilhões de reais maior em decorrência dos leilões que o Banco Central vem fazendo de “swaps” cambiais.

A sutileza da atual especulação contra o real, portanto, é que ela é uma especulação baseada em indexadores: que se exerce com o auxílio não do dólar, mas de uma unidade de conta – a SELIC – expressa em reais.

Ainda assim, é uma especulação contra o real.


A GUERRA DOS CEM ANOS

A chamada guerra dos cem anos, que ocorreu no final da Baixa Idade Média, consistiu numa série de conflitos armados intermitentes durante os séculos XIV e XV – entre 1337 e 1453 – envolvendo, especialmente, a França e a Inglaterra.

Como impedir que esse fenômeno se repita, na Idade Contemporânea, no Oriente Médio, onde israelenses e palestinos voltam à luta armada, e o Líbano pede a ajuda dos EUA para enfrentar ataques de uma fação local da Al Qaeda num conflito com o exército regular libanês ?

Haverá guerras intermináveis, ou tão duradouras que pareçam intermináveis ? O que fazer para por fim a uma guerra que, aparentemente, não pode terminar com a vitória de qualquer dos contendores ?

Todas essas indagações nos ocorrem ao ver a dificuldade do Congresso norte-americano, de maioria democrata, em conseguir fixar um cronograma para a retirada das tropas dos EUA do front de batalha do Iraque, e ao perceber, nas entrelinhas das notícias, que os belicistas estão preparando a extensão do conflito na região.

A esperança, a curto prazo, é que o futuro primeiro ministro da Inglaterra, Gordon Brown, aja como um Tony Blair ao contrário, e consiga tirar, abruptamente, os britânicos do atoleiro em que se meteram no Iraque e que, com isso, comece a ser resolvido o problema que Bush, ao que tudo indica, quer jogar, daqui a dois anos, no colo do seu sucessor democrata.