FRAGMENTOS: a música e eu (2)

Minha professora de música no ginásio chamava-se dona Branca e tinha umas coxas roliças e apetitosas, que nós da classe gostávamos de apreciar, o que fazíamos através do artifício de jogar as borrachas dos nossos estojos no chão para poder observá-la de um ângulo melhor. Decorei por causa dela, além de alguns hinos, a relação dos instrumentos de um orquestra sinfônica, numa ordem de classificação que sei até hoje: flauta, flautim, clarineta, clarone, etc, etc. Dentre os hinos havia um de que eu gostava muito: “Marcha para Oeste, vem seguir tua bandeira, o futuro, nos espera, com toda essa terra que é bem brasileira.” Eu apreciava, também, um outro, composto pelo nosso antigo Imperador Pedro I: “ Já podeis da Pátria ó filhos, ver contente, a mãe gentil, já raiou, a liberdade, no horizonte do Brasil .” Cantávamos esse hino com uma letra inventada, que soava parecido com a original: “Japonês tem quatro filhos “ ….” Dona Branca afinava-nos soprando um diapasão em lá, e comandava a turma com os dedos da mão, sinalizando o dó em duas escalas. Ela indicava a subida da escala virando os polegares às avessas, num sinal parecido com o que hoje se usa para dizer que tudo está OK, e a turma toda acompanhava: dó, DÓOOOO.

Bem mais tarde, quando servi no Centro de Instrução de Oficiais da Reserva da Marinha (CIORM ) entre 1956 e 1957, e fiz a viagem de instrução do estágio para o Nordeste, no cruzador Tamandaré, deleitava-me quando a bandinha de bordo, ao chegar aos portos – onde, fardados de branco, éramos aguardados ansiosamente pelas garotas locais – tocava seus hinos guerreiros, em geral em tom menor. Além do Cisne Branco, que é uma beleza, gostava muito do “Avante, camaradas …” Foi na marinha que um comandante de quem me tornei amigo, muito boa pessoa,e que gostava também de ópera, recomendou-me que eu tomasse umas lições de canto com o professor René Talba, que lecionava num apartamento modesto em Botafogo. Depois de umas quatro ou cinco aulas, contudo, cansei-me dos exercícios de diafragma que eram necessários para tornar-me um bom cantor.

No CIORM, que ficava na Ilha das Enxadas, cantei muito com o Mário Henrique Simonsen, que cursava a Armada, no mesmo ano que eu. Especializamo-nos no dueto do Rigoletto com o Sparafucile, da cena II do ato I da ópera do Verdi, no qual eu fazia o papel do barítono e ele o baixo. Como o nosso palco era o vestiário, as vozes faziam muito eco, e os colegas, mandavam, aos gritos, que a gente parasse, o que nos obrigava a cantar cada vez mais alto. O Carlito Nehring era um dos que apreciavam os nossos shows. Ele e Simonsen, a quem chamava, de brincadeira, de Simon Boccanera, eram habitués de óperas no Municipal onde entravam de graça para fazer parte do coro.

Na viagem do Tamandaré fiz muitas letras, para espairecer,sobre melodias populares na época. Chamaram-me, mais tarde, um dia, num almoço de comemoração, para cantar as tais músicas, mas eu, ajuizadamente, me recusei. Elas eram muito criticas: “Pra outra viagem não me pegam mais, vou pedir as minhas contas ao CT Quintaes “. Quem gostava muito dessa farra toda era o Domício Proença Filho, hoje da Academia Brasileira de Letras. Também o Luiz Carlos Moreira e o Sérgio de Queiróz Duarte, meus bons amigos. O Simonsen, porém, era muito sério, e, como o “mais antigo” da turma, não participava dessas molecagens.

Quando éramos crianças papai nos levava, Marlete e eu, ao Municipal nas temporadas de ópera. Ele e o dr. Thomas Leonardos, seu melhor amigo, compravam uma frisa, todo ano, para as duas famílias, e lá íamos nós, alternadamente, assistir ao Gigli, ao Taglavini, à Tebaldi, etc. O teatro, na época, era o terceiro visitado nas turnês internacionais, atrás, apenas, do Scala de Milão e do Metropolitan, de Nova Iorque. O Luis Leonardos, mais tarde, quis curar o meu defeito de gostar de óperas e me levou a umas exibições de orquestra no teatro Rex. Ele gostava muito de Beethoven. A tia dele, Irene Leonardos, que me ensinava inglês e francês,me dizia que, com o tempo, eu ia preferir a música instrumental, que era mais pura. Hoje eu gosto muito de música instrumental, mas não perdi a mania da ópera, que ouço, como música de fundo, o dia inteiro.

(continua)


2 comentárioss até agora

  1. rosa abril 19, 2007 12:25 pm

    Querido Letácio

    Depois de um longo e tenebroso inverno voltei a acessaoro teu blog. Que prazer tive ao ler tuas deliciosas histórias! E que saudades senti de voce.
    Beijos

    Rosa

  2. Ana novembro 20, 2017 7:30 pm

    Marcha para Oeste – Letra de J. Sá Roris, música de: Vicente Paiva – Arranjo:
    H. Villa-Lobos
    Marcha para Oeste Vem seguir tua bandeira O futuro nos espera Com todo tesouro
    que tem nossa terra que é bem brasileira Marcha para Oeste Si quiseres conhecer
    Esta terra grandiosa por quem nós devemos Acima de tudo lutar e morrer! Estas
    vendo aquela enorme cordilheira muito alem da Mantiqueira É Brasil Estas vendo
    aquele ninho de gigante esses campos verdejantes, É Brasil! Tem ouro, tem petróleo
    carbonatos, diamantes E tem rios caudalosos E cascatas deslumbrantes tem o ferro,
    tem cristal, tem madeira, tem carvão E tudo isso é teu Bandeirante do Sertão.

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