A “moeda comunitária” venezuela

A idéia do pres. Hugo Chávez de instituir, na Venezuela, a “moeda dos pobres” – uma espécie de antítese da nossa “oerreteêne”, criada pelo golpe brasileiro de 1964, que era a “moeda dos ricos” – pode ser fruto de dois equívocos.

Segundo a reportagem de hoje do Estadão o novo ( e aparentemente temporário ) “sistema monetário venezuelano permitirá a troca de bens entre aqueles que não tem dinheiro”, o que evitaria a emissão de novos bolívares e o conseqüente aumento da inflação, que já é a maior da América Latina, de cerca de 17% anuais.

O primeiro equívoco, portanto, que pode estar por trás da sugestão, é de que a troca seria “melhor” para os pobres do que a compra e venda, o que não é verdade.

O segundo equívoco consiste em admitir que possa haver, num mesmo Estado, duas moedas nacionais, proposição que se abstrai do fato de que uma suposta “segunda moeda” não é dinheiro, mas crédito.

É preciso muito cuidado ao mexer com a ordem monetária, para não jogar fora, como se diz popularmente, o bebê com a água do banho.

A experiência brasileira nessa área – embora oriunda de uma inspiração inteiramente contrária à que deve estar movendo o governo venezuelano – pode servir de boa conselheira do pres. Chávez.


A VARIG VÊ A VIÚVA

A velha VARIG – que não vale nada – ganhou, há tempos, uma ação judicial de dois bilhões de reais ( e mais quatrocentos milhões de condenação em honorários de advogado ) contra a União Federal, com base na alegação de que teria sido prejudicada pelo governo por causa do congelamento temporário de suas tarifas,decretado na época dos planos econômicos.

Como o congelamento de preços foi a técnica sucessivamente usada pelo governo, desde 1986, para tentar acabar com a inflação, atingindo praticamente todas as empresas brasileiras, o argumento da VARIG desmoraliza-se por si, já que serviria de base para que qualquer um de nós propusesse ação semelhante.

Levado às últimas conseqüências o fundamento da sentença que beneficiou a VARIG, conduziria à conclusão de que os Estados nacionais não podem fazer reformas monetárias.

O fato, porém, é que a antiga VARIG, com base em perícias no mínimo “fantasiosas” conseguiu, na Justiça, uma condenação de mais de dois bilhões, montante evidentemente distorcido, se comparado, inclusive, com o preço da recente compra da nova VARIG pela GOL (de cerca de700 milhões de reais ).

Ou seja, a indenização que a velha VARIG está cobrando da União Federal corresponde a mais de 3 vezes o preço de venda da nova VARIG.

Ocorre que os antigos empregados da VARIG estão fazendo, agora, uma campanha de opinião pública visando usar esse dinheirão todo da “viúva” – que a Advocacia Geral da União luta para não pagar – para compensar o rombo provocado pelos antigos administradores da AERUS, o fundo de pensão dos funcionários da companhia, que está sob regime de intervenção pelo Ministério da Previdência.

Alguns desses antigos empregados prestaram, ontem, no Jornal das Dez, da TV GLOBO, comovedores depoimentos , reclamando que a complementação de suas aposentadorias não está sendo paga pela AERUS,e pleiteando, expressamente, que parte dos bilhões de reais da condenação judicial sejam empregados para recompor o patrimônio do seu falido fundo de pensão.

Essa operação financeira, que está sendo vendida para o grande público como se fosse uma simples conta de compensação significa, na verdade, forçar a União Federal a fazer um acordo com a velha VARIG, desistindo dos remédios judiciários – até de uma eventual ação rescisória da sentença – que anulem, ou pelo menos, reduzam,a indevida condenação imposta, ou retirem-na, de qualquer modo, da fila dos Precatórios.

A gestão fraudulenta dos recursos da AERUS, que causa danos aos antigos funcionários da VARIG, não pode ser consertada às nossas custas.

A questão da VARIG, até hoje, vem sendo encaminhada com base em soluções “de mercado”.

Não podemos permitir que o pleito dos seus antigos funcionários, contra seus antigos patrões, sirva de pretexto para que a “viúva” sofra, mais uma vez, a sangria gigantesca de dinheiro que estão querendo lhe impor.


Cortigiani, vil razza dannata

Cortesãos, raça vil e danada …. Foi dessa imprecação do RIGOLETTO de que imediatamente me lembrei quando assisti ontem, na televisão, a uma festa na Casa Branca em que o presidente George Bush e outras figuras do governo americano dançam, contam anedotas e riem muito, aplaudidos por um público parecido com o da corte do Duque de Mântua, retratado na ópera de VERDI.

Essa festa, ao que parece, se repete anualmente, a pretexto de celebrar as boas relações entre o governo e a mídia e simular a descontração dos americanos em geral no seu convívio com o poder.

Logo depois desse quadro, em que o presidente – com a sua cara de Ronald Golias – lê três ou quatro anedotas e o sinistro Karl Rove dança um R.A.P – dá-se um corte e aparecem cadáveres estropiados de civis iraquianos, vítimas da guerra civil que eclodiu no pais em decorrência da ilegal invasão de quatro anos atrás.

Em respeito – não digo aos mortos iraquianos, que são considerados, certamente, pelos personagens da festa, seres inferiores – mas às famílias dos próprios americanos que estão morrendo como moscas todos os dias no Iraque, essas modalidades de comemorações deviam ser evitadas em momentos graves como o que estamos vivendo, diante dos quais soam como um trágico deboche.


Cem anos de perdão.

O primeiro ministro britânico Tony Blair, com o apoio ostensivo dos EUA, afirmou, ontem, que a apreensão de um barco de bandeira inglesa pelo Irã, e a prisão dos seus marinheiros, foi um ato “ilegal”.

Segundo ele, a ilegalidade da conduta do governo iraniano decorreria do fato de que as águas do golfo pérsico em que ele navegava seriam administradas pela ONU.

Na verdade, o Iraque foi invadido, pelos EUA e pela Grã Bretanha, de modo que não se poderia propriamente falar em soberania iraquiana sobre aquelas águas.

É duvidoso, porém, que a ONU tenha alguma participação nesse episódio. Em nome de quê estaria a ONU no golfo pérsico ? Com base em quê fez Blair essa afirmação ?

A guerra do Iraque foi um ato unilateral dos países de língua inglesa que não teve o respaldo da ONU.

Como aceitar-se, portanto, a tese do primeiro ministro de que a prisão dos seus compatriotas foi ilegal ?