FALTA DE CREDIBILIDADE DA C.I.A

Foi muito preocupante o artigo de ontem do jornal inglês independente The Guardian que mostrou uma soma de medidas de intimidação que os EUA estão tomando para preparar uma guerra contra o Irã. Amanhã, aliás, como se previa, deve sair na imprensa o relatório do serviço secreto sobre a morte de soldados americanos “causadas” por agentes iranianos.

A origem desse relatório é o mesmo Serviço Secreto que inventou o incidente do golfo de Tonkim, que serviu de pretexto, na época, para a invasão do Vietnam do Norte por ordem de Lyndon Johnson, e que “fabricou” as armas de destruição em massa que deram início à guerra do Iraque por Bush.

Mas há uma esperança: que a Casa Branca – que só tem errado politicamente – perca, mais uma vez, a sua batalha política atual a favor da extensão do conflito.

Os objetivos nacionais permanentes dos EUA não podem, com efeito, se limitar a buscar a hegemonia a qualquer preço, mesmo às custas da nossa sobrevivência como civilização. Há de haver, por lá, autoridades civis e militares um pouco mais razoáveis do que as que estão na linha de frente.

O presidente Bush, por outro lado, está mais fraco do que nunca; e se a política é a arte de atacar depois de acumular forças, a situação dele é bem pior do que antes de decretar a guerra do Iraque.

Ainda assim, o fator Irã – o segundo personagem do “eixo do mal” – é um complicador a mais que dificulta a saída dos americanos do front do Iraque, pois o território desse país tornou-se um cenário propício para a armação de incidentes contra os vizinhos.

De qualquer modo seria tão mais fácil uma saída diplomática para o Oriente Médio !

Essa proposição é tão óbvia que pode ser que acabe prevalecendo ( sem prejuízo da minha sugestão anterior de se promover, sem falta, o impeachment não só de Bush como de e Dick Cheney, elevando-se, com isso, pela primeira vez, uma mulher, Nancy Pelosi, a terceira na linha de sucessão, à presidência da República).


É preciso completar o plano Real

O plano Real foi recebido pelo PT, em 1994, com um slogan muito idiota que foi pichado em muros e paredes das cidades brasileiras: “Parece pesadelo, mas é real”. Mais tarde, um político habilidoso do mesmo partido, o deputado Antônio Palocci, percebeu o potencial eleitoral da estabilidade monetária e, como ministro da Fazenda do primeiro governo Lula manteve o plano onde ele estava, sem recuos ( ajudando, com isso, depois, a reeleger o presidente ).

Palocci, contudo, não teve fôlego para arrematar e concluir o plano, o que é tempo, agora, de fazer.

O plano Real foi, essencialmente, um demorado programa de desindexação da Economia brasileira que começara, na verdade, em 1986, com o plano Cruzado: a primeira tentativa (fracassada ) de livrar o país de uma armadilha que consistia na correção monetária automática e generalizada dos créditos, inaugurada pelo governo militar com a Lei n. 4.357, de 1964, que criou a Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional ( ORTN ).

Embora tenha conseguido, com sucesso, estabilizar os preços, o plano Real, e as normas de complementação que se seguiram ( a mais séria das quais consistiu na Medida Provisória n. 1.053, de 1999, de Desindexação da Economia ) além de repousar num “truque”– a Unidade Real de Valor (URV) – deixou, provisoriamente, de fora da normalização monetária setores importantíssimos, como o sistema financeiro e as dívidas judiciais trabalhistas e cíveis ( inclusive os famigerados Precatórios ).

Tanto a URV como as exceções ao monopólio do Real eram artifícios provisórios, mas findaram por se tornar definitivos (como acontece com freqüência no Brasil ) dificultando, com isso, até hoje – 13 anos depois – o crescimento do país, preso a um rigoroso programa de juros altíssimos, de contenção de despesas e de elevada dívida pública que é rolada dia a dia.

A URV impediu, como ainda impede, que as obrigações pecuniárias que precederam Real –fruto das anteriores modificações da moeda nacional em cruzados e cruzeiros – cujo fator de conversão foi de 2.750 para 1 ( isto é, dois mil setecentos e cinqüenta cruzeiros reais passaram a valer um Real ) tivessem sido, efetivamente, convertidas, de modo que essas obrigações estão rolando indefinidamente ( como as infelizes pedras dos caminhos ) até os dias que correm.

Quanto aos créditos que circulam no sistema financeiro eles continuam a sofrer, a despeito da estabilidade dos preços, uma correção diária, que constitui um plus sobre a taxa básica de juros representada pela SELIC que é, por sua vez, uma taxa “flutuante” ( ou seja, corrigida ). O chamado sistema financeiro da habitação, por sua vez ( que tenta se expandir em direção às obras de infra estrutura e de saneamento ), como depende de empréstimos bancários internos e externos, está cada vez se reindexando mais, ameaçando, com isso, a unidade monetária nacional.

Não podemos esquecer, por último, das ameçadoras pressões pelos aumentos salariais do Judiciário, do Legislativo e do Ministério Público que se justificam como se fossem meras “reposições” das perdas do poder aquisitivo dos vencimentos num determinado período, o que é, nada mais nada menos, do que uma forma de sobrevivência do conceito básico da indexação.

O min. Mantega já demonstrou que não está à altura do cargo.

O PAC, patrocinado por ele e que pretendia ser um grande trunfo para o governo, resultou num fracasso político, por lhe faltar, em última análise, visão institucional. Ainda agora, ao se referir à medida formalmente correta do governo de atribuir ao Tesouro a responsabilidade de pagar certos débitos que estavam lançados na conta da Previdência Social, o ministro, segundo os jornais, disse tratar-se de “um arranjo burocrático”, querendo significar, aparentemente, que era “mera” providência de caráter jurídico, demonstrando ignorar a diferença entre o Direito e a burocracia.

O segundo governo Lula deve aproveitar o pouco que restou do embalo positivo do PAC – o conjunto de investimentos em áreas de infra estrutura sistematicamente exposto – e dedicar-se ao que realmente vai destravar o país: completar e concluir o plano Real, desidexando, por inteiro, a Economia.


Preparando uma nova guerra

O que parecia impossível está acontecendo sob as nossas barbas: a Administração Bush, cada vez menos prestigiada, está preparando uma nova guerra. Quanto mais encurralada pela opinião pública, e pelos políticos democratas, mais belicosa ela se torna.

Uma guerra contra o Irã – já disse um ministro britânico que foi demitido, a pedido de Rumsfeld, por essa opinião – é uma loucura.

Não parece haver dúvida, por outro lado, de que os custos dessa guerra serão pesadíssimos para o “ocidente”.

Ainda assim, é isso, exatamente – preparando uma nova guerra, desta vez contra o Irã – que George Bush está fazendo, como adverte o jornalista Simon Tisdall, do jornal inglês The Guardian.

Será que nada nos resta mais senão sentarmos em frente à televisão ( enquanto ela houver ) e entretermo-nos com o espetáculo preliminar de destruição de uma civilização promovido por um governo doido ?


JULGAMENTO DE BUSH

A intenção de Kelsen ao propor, em meados do século passado, a instituição de um Tribunal Internacional, como instrumento da luta jurídica pela paz, era a de se poder julgar, pessoalmente, os responsáveis pelas guerras, o que se aplicaria como uma luva ao caso do pres. George Bush, cuja confrontação crescente com o Irã assombra os analistas americanos pela semelhança com o que ele fez, há 4 anos atrás, em relação ao Iraque ( do que dá notícia o jornalista David E. Sanger do NYT em texto publicado em tradução no Globo de hoje ).

A não adesão dos EUA ao Tratado que criou o atual Tribunal Penal Internacional inviabiliza, contudo, a deflagração de um processo judicial contra o presidente americano, ainda mais com ele no poder.

A verdade, todavia, é que Bush age como o chefe de um bando, e não como um chefe de Estado, ao querer expandir uma guerra que declarou por motivo falso e, na prática, está perdendo.

O remédio, portanto, parece ser o seu julgamento político, como exigido, por sinal, pelos manifestantes da “passeata dos 100 mil” da última semana nos EUA, em que se pedia, insistentemente, o impeachment do presidente.