Um dinheiro regional comum chamado \’sul\’
Na famosa cena shakespeariana da sacada, diz Julieta, dirigindo-se ao seu amado, que acabara de entrar no jardim de Capuleto: “Romeu, porque és Romeu ? Somente teu nome é meu inimigo. O que é um Montecchio? O que é um nome ? Se outro nome tivesse a rosa, em vez de rosa, deixaria de ser, por isso, perfumosa ?”
Essa irrelevância do nome, que pode ser verdadeira na visão de Julieta, não faz sentido, contudo, em se tratando de moedas nacionais, para as quais a denominação é um elemento fundamental. Se o dólar, por exemplo, não se chamasse dólar, mas libra esterlina, ele não seria o que atualmente é; e o mesmo ocorreria se o real passasse a se chamar peso, ou vice versa.
Mas porque o real e o peso não se unem – como o fizeram o marco alemão e o franco francês – e passam a constituir um dinheiro comum regional, chamado ‘sul”?
O economista Fábio Giambiagi tem estudado, há alguns anos, a criação de uma moeda única na região, abrangendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai ou, pelo menos, para começar, apenas os dois primeiros países. São impressionantes os argumentos que ele resume favoráveis à essa união, a saber: a) – seria uma solução para as inconsistências de uma integração incompleta; b –evitaria riscos de retrocesso no processo de integração; c – constituiria uma oportunidade de ganho de credibilidade; e d – possibilitaria uma combinação de interesses nacionais complementares. Além disso, as condições para a configuração de uma optimum currency area , dentre elas um “nível elevado do comércio intra-regional “e “semelhanças entre os tipos de choque aos quais os países (da região ) estão sujeitos”, parecem também estar presentes.
A circunstância de a Venezuela acabar de ingressar no MERCOSUL deve ser saudada com otimismo, e não como “aquele horror” como é tratada por alguns analistas, que observam muito mais fatores conjunturais do que interesses nacionais permanentes e de longo prazo. O fato de esse país precisar, certamente, de um pouco de mais tempo, para aderir ao sistema monetário comum, não impede que seja saudada, desde logo, como extremamente positiva, a sua futura participação numa nova ordem jurídico-monetária continental.
Como a denominação é um componente essencial da moeda quero tomar partido do nome ‘sul” – que pode representar uma nova bandeira para a América do Sul – sendo essa, a meu ver, uma designação muito mais adequada do que outras que às vezes se propõem, como real, peso, merco ou Guarani. LETÁCIO JANSEN
