OS RUSSOS ESTÃO CHEGANDO


A repórter Maria Cristina Fernandes, do Valor, que está acompanhando Temer na sua viagem à Rússia, publicou relevante matéria sob o título “Putin, o parceiro ideal de Temer”, em que ela relaciona os importantes Atos e Tratados celebrados entre o Brasil e os russos, dentre eles os seguintes:

Reiterando o compromisso com o Acordo de Paris de combate às mudanças do clima;

Reforçando a ênfase no multilateralismo nas relações internacionais;

Prevenção de Armas Nucleares;

Eventual possibilidade de construção de novas usinas nucleares no Brasil;

Forte apoio à conquista, pelo Brasil, de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança;

Parceria chave com o Brasil na América Latina

Estudos para usar o Real e o Rublo nas trocas comerciais entre os dois países ao invés do dólar;

Perspectivas de lançamento conjunto de foguetes espacial da Base de Alcântara.

Enquanto os Estados Unidos fica se debatendo diariamente para tentar administrar o caos decorrente da vitória de Trump nas eleições presidenciais a Rússia põe em prática uma competente realpolitik de dar água na boca.


STEFAN ZWEIG E HANS KELSEN

Assisti, ontem, ao filme “Stefan Zweig, Adeus Europa”, que, afora a emoção que me causou – porque meus pais foram leitores de seus livros, famosos na época, embora depois um pouco esquecidos – lembrou-me de outro escritor de língua alemã, também nascido em 1881, que viveu as amarguras que Hitler causou ao mundo, especialmente aos intelectuais europeus.

Diferentemente de Kelsen, que – mesmo sendo o maior jurista de seu tempo não era uma celebridade – Zweig, por onde passava, era assediado pela Imprensa, diante da qual sempre manteve uma posição de cautela, evitando condenar, de público, a sua pátria natal, o que é mostrado com muito critério no filme. Ao contrário de Zweig, que cometeu suicídio em sua casa em Petrópolis – sobre o que Alberto Dines escreveu um livro excelente – Kelsen faleceu de morte natural, em Berkeley, nos Estados Unidos, com 92 anos de idade. Ambos eram, contudo, pacifistas e dedicaram parte de suas vidas a defender a união da Europa, que foi concretizada, parcialmente, através da moeda única que começou a circular em 2001.

Kelsen e Zweig  foram compelidos a se exilar porque eram intelectuais judeus. Kelsen não veio para o Brasil – para onde vieram poucos escritores, como Carpeaux e Ronai e os juristas Liebman e Ascarelli – e preferiu os Estados Unidos que era, naquele tempo, o refúgio da inteligência, a mesma que causa arrepios aos neo-nazistas que ocupam atualmente a Casa Branca.

A direção do filme é de Maria Schrader que também assina o roteiro, em coautoria com Jan Schomberg. A película foi rodada, em grande parte, em São Tomé e Príncipe – cuja paisagem simula bem a da Bahia e de Petrópolis, no Rio de Janeiro – e conta com a participação de codiretores e artistas lusófonos, dentre os quais anotei o nome de um Ruy Guerra, que não sei se é o nosso bem conhecido dos brasileiros.

A nova geração de classe média – que anda tão empolgada pelo discurso de direita – deve assistir a esse filme que evidencia a tragédia provocada pelos extremistas de sua ideologia. O Brasil, que Zweig percebeu ter as condições de ser um país pacífico e harmonioso, pode perder essas características positivas, se o ódio continuar a ser alimentado, como está sendo, em gotas, todos os dias.


E SE OS ECONOMISTAS ESTIVEREM ERRADOS?

Parece, na verdade, que eles estão e é isso o que afirma, educadamente, André Lara Resende, na entrevista de hoje a Cássia Almeida, do Globo, sob o título (aliás equivocado) “Verdadeiro Vício é a dependência do Estado”. Não estão errados, apenas, os nossos economistas brasileiros, mas os economistas em geral, especialmente os mais poderosos deles, norte-americanos, com quem a turma daqui aprendeu tudo o que … não sabe.

Lara Resende está publicando um livro tentando demostrar isso. Trata-se de uma constatação assombrosa: se os economistas estão errados, todos esses jornalistas econômicos que ocupam tanto espaço da mídia ensinaram-nos coisas que não eram certas durante anos e anos, embrutecendo-nos.

Diga-se de passagem que eles – economistas, analistas e jornalistas econômicos – com os seus equívocos, fizeram ( no jargão da esquerda ) o jogo da classe dominante, que ficou cada vez mais rica, às custas do povão, que ficou cada vez mais pobre. O problema é que até os ricos estão começando a pagar o preço desses erros que, por outro lado, geraram alguns monstros que ameaçam devorá-los como, por exemplo, o Brexit e Donald Trump ( sem falar na recessão brasileira que atinge as empresas em geral ).

Pegando uma carona no discurso de André gostaria de lembrar um texto publicado neste Blog, “Questionando o conceito de valor de troca”, onde tento situar a raiz das falhas da Análise Econômica mainstream na noção de valor de troca, de Adam Smith, inspirada em Aristóteles. O fulcro do engano está na afirmação de que a troca teria antecedido a moeda e que a essência do dinheiro estaria no seu poder aquisitivo. Esse defeito, que foi agravado, posteriormente,  por Menger e Von Mises, contaminou a doutrina econômica até hoje o que André Lara Resende está tendo o mérito de denunciar.


POR QUE NÃO TER UM DIREITO MONETÁRIO?

É o caso de aplicarmos à espécie a lição dos primeiros versos do “Poema enjoadinho” de Vinicius de Moraes que, em geral, sabemos de cor: “Filhos…  Filhos?/ Melhor não tê-los!/ Mas se não os temos/ Como sabê-lo?

Será muito útil termos um Direito Monetário para saber se não devemos tê-lo. Por que, então, as Faculdades de Direito – pelo menos – não o tem, ainda, em seus currículos?

Creio que não há País, no mundo atual e na História Universal, que tenha tido tantas Reformas Monetárias como as que tivemos de 1964 até hoje: Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real e Real, nenhuma das quais ainda deu certo. Como fazer tantas Reformas Monetárias sem conhecer Direito Monetário? Foi por isso que elas deram errado.

Por sermos ignorantes nessa matéria criamos, ao lado da moeda, um instrumento financeiro chamado correção monetária que, por sua vez, exigiu várias Reformas Financeiras, a saber: ORTN, OTN, URP, BTN, TR, URV, SELIC e todas vinculadas a índices, esses, então, infinitos: IPC, IGP, IPC-A, INPC, etc. etc. e não cessam de nos atormentar.

Tenho a certeza de que as nossas crises financeiras decorrem do nosso desconhecimento do Direito Monetário. Por que não tê-lo?