CONSERVADORISMO E ATRASO

O economista Francisco Lopes, no artigo da revista do Valor “André, Cochrane e a teoria fiscal dos preços”, usa, sem perceber, o adjetivo conservador com um único sentido, equiparando o conservadorismo de André Lara, ao exigir rigor fiscal, ao conservadorismo do Banco Central ao fixar as taxas de juros, por ele criticado.

A posição de quem defende a moeda nacional é, por definição, conservadora, assim como é conservadora a atitude de quem defende a ordem jurídica. A antítese dessas ideologias deriva para alguma forma de anarquismo. André Lara, portanto, não deve ser criticado, por tentar defender o Real.A atitude conservadora do Banco Central ao fixar as taxas de juros, não conseguindo reduzir as taxas de inflação era, na verdade, atrasada. O qualificativo conservador usado em relação a ela foi um eufemismo.

André Lara, e outros economistas ortodoxos como Mônica de Bolle – que vislumbrou na situação brasileira um caso de “dominância fiscal” –  constataram um fato óbvio: o Banco Central de Tombini fracassou na sua luta para preservar o poder aquisitivo da moeda nacional e foi responsável pela recessão que agora estamos vivendo.  As suas diretorias e corpo técnico estão sendo defendidas por alguns economistas por “esprit de corps” e vontade de se exibir, querendo demonstrar atualidade com as últimas doutrinas econômicas em voga no exterior, onde praticamente todos eles fizeram pós-graduação.

A revista Valor, aliás, numa reportagem de Alex Ribeiro, sob o título “O economista incendiário”, estampa uma longa entrevista com o próprio professor de Stanford, John Cochrane, na qual ele demonstra ignorar inteiramente a situação brasileira, o que me levou a crer que André Lara invocou as suas lições “neofisherianas” como um mero “gancho” para criticar, politicamente, o atraso cultural dos quadros do Banco Central, designando a sua conduta, gentilmente, como conservadorismo.

Vale a pena concluir lembrando que o atual Presidente do Banco, Ilan Goldfajn, já deu a guinada necessária, promovendo a baixa da taxa Selic, dando um certo alívio à Economia. Outras medidas de caráter microeconômico estão sendo tomadas pelo governo tentando normalizar a ordem monetária.

O grande problema, porém, continua a ser a correção monetária, que nos faz parecer “um país à deriva”, como lembra o Comandante do Exército General Eduardo da Costa Villas Bôas, numa entrevista equilibrada à repórter Monia Gugliano, à mesma revista Valor. O general diz, com razão, que as forças armadas não são polícias, e é um erro utilizá-las para substituir as policias estaduais, que estão falidas.

A cumplicidade dos gestores púbicos brasileiros, ao longo de décadas, com a correção monetária, criou um sistema disfuncional que precisa ser superado, sob pena de se instaurar o caos, propiciando o surgimento de um populista salvador da pátria nas eleições de 2018. Considerando isso, o governo Temer deve ser apoiado, inclusive pelo PT, já que está cumprindo um papel importante, de arrumação das forças políticas existentes, que embora não sejam nada boas, são as que temos. Agir ao contrário é fazer o jogo do bandido.


MALVADOS FAVORITOS

Ouvi de uma loquaz anti-petista, na época do Impeachment de Dilma, que o Deputado Eduardo Cunha era o seu “malvado favorito”, quando ele era o ponta-de-lança do processo político contra a ex-presidente.

Pela lógica, agora, esse lugar, de “bandido do bem”, deve estar sendo ocupado pelo Deputado Jair Bolsonaro, uma espécie de Trump nacional, que está subindo nas pesquisas eleitorais para 2018.

O candidato mais forte do que ele é o ex-presidente Lula do qual a população tem saudades pelo clima de euforia econômica em que vivia sob seu governo.

Cumpre lembrar, contudo, que o ex-presidente Lula, quando o seu Ministro da Fazenda era Guido Mantega, deixou de extinguir a correção monetária residual que, depois de algum tempo, tomou conta, de novo, do cenário, e ajudou a promover a quebradeira geral que hoje se vê.

Não devemos nos iludir com as pessoas de mau caráter.

Mas não basta, também, criar um clima de festa: é preciso manter o ritmo, para que a festa se sustente.


INVENTANDO A PÓLVORA

O atual economista-chefe do Itaú Unibanco, no artigo do Valor intitulado “Para crescer mais: infraestrutura” propõe a indexação cambial – proibida, por sinal, atualmente, pela lei – como solução para os grandes investimentos em infraestrutura. Escreve ele:

“ Quem investe em euros, dólares ou ienes quer ser remunerado nessas moedas, não em reais. A forma mais direta e simples de oferecer proteção cambial aos investidores é indexar as tarifas ou pedágios, de forma adequadamente suavizada, por meio de médias móveis, longas, à taxa de câmbio. Para quem se assusta com isso, vale lembrar que os preços dos combustíveis e a energia elétrica de Itaipu já são dolarizados.”

Convém, preliminarmente, salientar que a situação dos preços dos combustíveis e das tarifas de Itaipu, tomadas como exemplo,  é diferente. Itaipu é uma empresa binacional. Quanto ao petróleo o fato de a Petrobrás atrelar seus preços aos praticados no mercado internacional não significa indexá-los, como já tive oportunidade de explicar, pormenorizadamente, em textos anteriores, ao criticar a visão equivocada da então presidente Dilma sobre essa questão.

Quanto à proposta “moderna” de Mesquita ela repete, ipsis literis, a doutrina que inspirou os contratos de concessão de serviços públicos do início do século XX, em que metade da tarifa era em mil-réis e a outra metade ligada à cláusula ouro. Essa política, que tem mais de um século de experiência, gerou consequências desastrosas, que o articulista demonstra ignorar.

O pior é que no fundo dessa discussão há um problema mais grave, sendo lícito esperar que ao economista-chefe do Itau, na qualidade de representante da alta finança nacional, coubesse ajudar a resolvê-lo e não escamoteá-lo. Trata-se de saber se o Brasil é capaz, ou não, de ter uma moeda nacional. De minha parte não vejo como não termos – como todos os demais países – uma moeda nacional, valiosa, que tenha validade e eficácia.

Claro que é preciso, para isso, que asseguremos aos credores, nacionais e estrangeiros, um marco regulatório confiável num regime de estabilidade de preços.

Em outras palavras: a versão moderna da cláusula ouro, defendida equivocadamente por Mário Mesquite, é o princípio da estabilidade dos preços, que se desenvolveu amplamente na União Europeia, com a instituição do Euro, como moeda comum supra nacional.

É pena que os conservadores brasileiros – e um economista-chefe do principal banco privado do País tem obrigação de ser um deles – militem contra a moeda nacional.


FORA DOS QUADROS DEMOCRÁTICOS

O “eixo” Trump, Putin e Netanyahu pressupõe desobediência à forma que caracteriza a Democracia.

Dos “três grandes” dessa nova aliança quem menos trairá seus ideais é Putin, cujos compromissos são com o Estado forte e nacionalista.

Netanyahu, contudo, inviabiliza o prosseguimento democrático do Estado de Israel, o que a diáspora judaica, especialmente nos Estados Unidos, não apenas está percebendo claramente como já pressentia, e do que discorda.

Quanto a Trump ele fere, descaradamente, um valor fundamental da América do Norte.